Sobre lançamentos de livros e sociedade mediada

Fora convidado para o lançamento do livro de um ex-possível orientador que só conhecia por nome. O e-mail chegara com um título bastante convidativo (“Participação obrigatória”; leia-se precisamos de quórum), partindo de um grupo de pesquisas que se diz ligado à sociedade pós-política e à era virtual. Mediação pela Internet, perda de referencial cultural e político, aproximação das pessoas por afinidades e não imposições geográficas (mas eu não nasci com este corpo?!) etc.

(Parêntesis contextual: tal grupo era um tanto deslocado da linha central da pesquisa de nosso personagem; fora indicado por outra ex-possível orientadora, esta sim capaz de conduzir melhor a execução do trabalho. Iniciado com grandes pretensões, o grupo não colhia de nosso personagem o mesmo ânimo de espírito, visto o deslocamento temático e, por vezes, a lacuna prática, sempre bem compensada pela polidez retórica e pela subserviência acadêmica, da maioria de seus membros. Exatamente por isso, apesar de uma ou duas reuniões para estudos em grupo, a maior parte dos contatos havia sido travada no mundo virtual, por e-mail.).

Eis que chega na livraria cult de Pinheiros (o personagem real). Sobe ao terceiro piso. Adentra a sala do evento mantendo a postura e com a respiração presa. Mapeia o recinto com o olhar. A um canto, um senhor assinando livros —só poderia ser o professor (o real). Pelo tempo que havia decorrido desde o último contato real, só guardara na lembrança a imagem de dois membros do grupo. Nenhum deles estava lá. Desconhecidos. Os cerca de 50 que permaneciam no local.

Em horas como estas não há nada mais reconfortante que um copo à mão. Ao mesmo tempo que blinda, inclui o personagem no ambiente. Esperou o garçom, que mostrou-se generoso. E os 30 minutos que haveria de passar ali transformaram-se em horas, talvez dias. Buscou o canto mais recôndito. Por sorte, havia nele uma cumbuca, castanhas e amendoins. Entre um gole de vinho e um amendoim, viu o tempo e a fila dos autógrafos passarem. Não queria um autógrafo, tampouco o livro —que nada tinha a ver com sua linha de pesquisa. Seus conhecidos (reais) não chegavam, e os virtuais, que cara tinham?

Vagarentos 30 minutos se passaram. Como não chegassem seus conhecidos reais, fora-se. Com uma taça de vinho, algumas castanhas e um risco na calota, na saída do estacionamento. E só.

Maldita sociedade mediada.

Anúncios

Um comentário sobre “Sobre lançamentos de livros e sociedade mediada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s