O motor da polêmica

Abaixo, a íntegra do texto publicado por “Meio & Mensagem” e que levou à demissão do editor Costabile Nicoleta:

“Em que pese a vitoriosa trajetória pessoal e profissional de Octavio Frias, sua figura nunca desfrutou de consenso. O jornalista Mino Carta, editor de Carta Capital e um dos maiores nomes da imprensa brasileira, disse em entrevista publicada em 2006 na revista Caros Amigos que a Folha, diferentemente da propalada pluralidade, sempre serviu à ditadura e cresceu graças às benesses do poder. “Até hoje o jornal, que gosta de posar de democrata e transparente, tenta esconder esse período macabro, que revela todo o seu caráter de classe e a sua postura direitista”, alfinetou Carta.

Há razões para a crítica de Carta. O liberal Frias teve, de fato, uma história controversa em suas posições políticas. Logo ao comprar a Folha, teria feito do jornal um instrumento a serviço da conspiração golpista. Estampava manchetes sensacionalistas contra o “perigo comunista” e assinava editoriais contra a “corrupção e a subversão”. Na fase mais aguda da ditadura militar, por exemplo, a Folha da Tarde, também do grupo, divulgava a “morte de terroristas em emboscadas policiais” quando estes ainda estavam na prisão.

A falsa notícia servia para encobrir as torturas. Grupos armados, como resposta, incendiaram três peruas da empresa, usadas não só para transportar o jornal como para recolher torturados ou pessoas que seriam torturadas na Operação Bandeirantes (Oban), órgão de segurança que combatia a subversão, inaugurado em 1969. Assustada, a família passou a morar no prédio da Folha — de setembro de 1971, quando da morte de Carlos Lamarca, militar que atuou na oposição armada, até fevereiro de 1972. Um apartamento foi construído no oitavo andar do prédio, com vidros à prova de bala. Os filhos aprenderam a usar armas.

Na ocasião, um furioso editorial contra o movimento de guerrilha foi publicado na primeira página: “Os ataques do terrorismo não alterarão a nossa linha de conduta. Como o pior cego é o que não quer ver, o pior do terrorismo é não compreender que no Brasil não há lugar para ele. Nunca houve. E de maneira especial não há hoje, quando um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular está levando o Brasil…”

Em 1977, Frias demitiu o colunista Lourenço Diaféria, a pedido do general linha-dura Hugo de Abreu, então ministro e chefe da Casa Militar do presidente Ernesto Geisel. Em sua irreverência habitual, o escritor assinara uma crônica sobre um bombeiro que urinara na estátua de Duque de Caxias, no centro de São Paulo. Com Cláudio Abramo, Frias também sucumbiu aos apelos militares. O filho Otávio refuta
as acusações. No livro que perfila a vida de seu pai, Otavinho alega que os veículos da empresa foram usados por equipes do DOI-Codi (órgão de inteligência e repressão durante o governo militar) à revelia de Frias.”

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