Jornalismo e engajamento digital

Boa a análise do Centro do MIT (Masachussetts Institute of Technology) para o Futuro da Mídia Cívica sobre o site BBC Action Network, página colaborativa que a rede de mídia britânica lançou em 2003 para reunir leitores em torno de iniciativas locais de seu interesse.

O texto cita alguns casos de sucesso, como uma campanha iniciada no ano passado por morador de Ealing, nos arredores de Londres, sobre o fechamento de uma rua que desviaria uma grande quantidade de tráfego para a região em que morava.

Centenas de vizinhos aderiram à campanha pelo site, organizaram a impressão de panfletos, um abaixo-assinado e até uma marcha de protesto. Segundo o site do MIT, a campanha surtiu efeito, e a autoridade de transportes de Londres procurou uma alternativa ao fechamento da rua. Por um serviço digital colaborativo, cria-se massa crítica e engajamento no mundo real.

Penso eu que pontos de  tangência existem entre possibilitar uma ação engajada como esta e a missão social do jornalismo, especialmente do jornalismo colaborativo. O professor Chaparro, em seu blog, tenta chegar a uma definição do jornalismo: “Lendo os jornais, a gente descobre que o jornalismo, mais do que uma profissão que exige talento, liberdade e idealismo de quem a exerce,  transformou-se numa linguagem e num ambiente que a sociedade organizada utiliza para expressar e ajustar discursos interessados, conflitantes, para os confrontos discursivos do tempo presente.”

Ora, serviços colaborativos com regras claras, como o exemplo da BBC, não seriam também “ambientes que a sociedade organizada utiliza para expressar e ajustar discursos”? O jornalismo colaborativo então não pode muito bem entrar nessa?

Lembro-me da época de faculdade, em que conversava com o amigo Marcelo Grimberg, hoje embaixador, sobre nossas descobertas acerca do jornalismo. Uma das idéias que guardo das conversas era uma visão do jornalismo, principalmente em sua crescente vertente people, como um grau ampliado da fofoca provinciana. Em vez de falar sobre a roupa do vizinho ou da vida de fulana, minha amiga, o assunto de roda agora seria a roupa da atriz tal, ou o novo caso da cantora pop da matriz. Só consigo enxergar isso como alienação, afastamento da própria realidade —sim, mal conhecemos nossos vizinhos nestes dias.

No lado oposto aparece este engajamento digital. Ele me leva a acreditar que a Internet bem utilizada, pode, sim, elevar o grau de proximidade entre as pessoas e trazer de volta às pessoas o seu real contexto. De qualquer forma, ainda me faltam exemplos brasileiros que me façam enxergar este potencial por aqui —e talvez serviços que fomentem interesses aliados à proximidade física.

Será que o brasileiro usa a Internet como mídia de massa? Será que nossa democracia não evoluiu o suficiente? Será o efeito de um “capitalismo selvagem” e de nossa pouca visão do “espaço público” como “espaço de todos” (e não “espaço de ninguém”) que diferencia o Brasil de outros países quanto ao uso das mídias colaborativas para a resolução de questões locais?

E você? O que acha? Dê seu pitaco! ;-)

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2 comentários sobre “Jornalismo e engajamento digital

  1. óTIMO Post, Madureira!
    Com inteligência, você amarra uma série de pontas soltas e latejantes… A questão – ou as questões – com a qual fecha é mais do que importante. É vital para pensarmos tecnologia e sociedade na atualidade. abs

  2. Pingback: BBC vai encerrar site de colaboração « Clico, logo existo

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