Manifesto contra a Web 2.0

“O culto do amador é a ilusão mais sedutora da utopia digital. Esse culto promete que as mais recentes tecnologias midiáticas na forma de blogs, wikis e podcasts permitirão a qualquer um tornar-se escritores, jornalistas, diretores de cinema e artistas musicais amplamente conhecidos. Ele sugere, erroneamente, que todo mundo tem algo interessante a dizer.”

Pode até ser velho, mas só descobri hoje, pelo blog do Hernani, que um cara chamado Andrew Keen escreveu um livro, “O culto do amador” (pelo que vi, ainda sem tradução para o português), que certamente servirá de contraponto para minha tese.

O subtítulo do manifesto (“Adorno para leigos”) já mostra a idéia de elitismo cultural de que parte a premissa da crítica —o desenvolvimento digital trará uma “vertigem cultural”, segundo o autor.

Nos dias em que acordo mais autoritário, tendo a concordar com Keen. Esse “culto do amador” parece uma reação alérgica ao “padrão Globo de qualidade” —na verdade, à mídia de massa, à sociedade do espetáculo, que oprime seu público, de certa forma, ao torná-lo mero receptor de enlatados.

Só uma coisa me faz ter um pé atrás com o elitismo cultural de Adorno e Keen —o que resta, em mim, de anarquismo. Quem diz, senão o próprio caráter autoritário de quem se coloca diante de uma câmera, microfone ou folha de papel em branco, que o fruto de sua produção é “padrão de qualidade”, uma “cultura superior”?

Admito —o que me faz gostar mais de rock progressivo ou música clássica, em alguma instância, não deixa de ser o prazer de saber, ainda que inconscientemente, que tenho mais conhecimento musical que o pessoal da favelinha lá do lado do prédio, que ouve funk e pagode.

Quanta soberba… ;-)

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2 comentários sobre “Manifesto contra a Web 2.0

  1. Legal vc ter citado o Keen e seu “cult of the amateur”. O livro é uma brilhante oposição a Glenn Reynolds e seu “exército de davis” (um ode ao jornalismo cidadão) e também ao conceito “the long tail” do Anderson, da Wired.

    Na verdade, no livro o Keen não defende o trabalho do profissional de jornalismo. Cita isso en passant. A obra é uma grande crítica aos aspectos negativos da rede, como o amadorismo na produção jornalística sim, mas também pornografia, roubo de dados, clonagem de cartões e identidades, pirataria…

    É só porrada, o tempo todo. Apenas para nos lembrar que, por trás de uma página da web, pode estar um zé merda qualquer. Considero um alerta para aqueles que vêem a Internet com os olhos de “nossa, como isso é sensacional”. É um contraponto que se fazia extremamente necessário.

  2. Pingback: Polivalência jornalística e o culto do amador « Clico, logo existo

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