Polivalência jornalística e o culto do amador

Valeu a pena a palestra da professora da Universidade de Navarra Charo Sábada hoje pela manhã na ECA. Ela abordou convergência —e mostrou o tema como algo bem mais amplo do que simplesmente juntar um punhado de recursos em aparelhinhos portáteis. Afinal, por trás dos equipamentos estão pessoas. E, no caso da mídia, muitas vezes jornalistas. E como fica o jornalista no meio desse processo de convergência?

Para tentar descobrir a resposta, Sábada falou de um estudo de convergência que Navarra deve empreender no início de 2008 para detectar o grau de convergência de mídias na produção de conteúdo em grandes veículos espanhóis. Um dos índices que eles querem descobrir é o quão multimídia são os jornalistas —mas, também, o quão polivalentes são eles.

E aí estão conceitos raramente analisados e definidos separadamente no campo da produção de informação —polivalência é diferente de multimídia (isso, mais uma vez, pensando em quem está atrás do aparato tecnológico).

Para Sábada, um jornalista multimídia é, por exemplo, um fotógrafo que produz imagens para diversos meios —impresso, televisivo, online. Já o jornalista polivalente é aquele capaz de produzir em diversos tipos de formatos —texto, foto, som, vídeo. Nem todo jornalista multimídia é polivalente (por incapacidade própria), nem todo polivalente consegue ser multimídia (por incapacidade do veículo ou da plataforma de publicação, talvez).

E mais uma vez fiquei em dúvida. Apesar de todo o buzz sobre Web 2.0 (acerca dele dei várias risadas com a colega de pós Carol Terra, do Mercado Livre), dizer a um estudante de jornalismo ou jornalista formado que o novo mercado exige polivalência pode ser uma armadilha:

  • Primeiro porque, com isso, haverá sobrecarga de trabalho nas redações —e isso pode muito bem ser usado pelos coronéis da comunicação e seus capatazes como discurso na hora de enxugar redações e transformar job descriptions (eles sabem o que é isso?) em bíblias;
  • Depois porque é difícil ser especialista em tudo —como muito bem descreve Andrew Keen em seu “O Culto do Amador“, talvez eu seja muito bom com as palavras, mas meus vídeos sejam horríveis
  • Finalmente porque a polivalência nem sempre vai gerar um conteúdo melhor, se as plataformas de publicação e os processos de produção de conteúdo dos portais não conseguirem, rapidamente, dar vazão de forma integrada a conteúdos multiplataforma

Isso dá um belo pano para manga, e um estudo bastante interessante de se ver. A professora Beth Saad, responsável pela vinda de Sábada à USP e também à Editora Abril, promete blogar mais tarde sobre a apresentação. Vale ficar de olho ;-)

P.S.: agradecendo a citação, devolvo —o blog da Ana Carmen tem um pequeno registro em vídeo (e outro olhar sobre a palestra).

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Um comentário sobre “Polivalência jornalística e o culto do amador

  1. Pingback: Pesquisadora de Navarra fala sobre convergência » anacarmen.com - Ana Carmen Foschini

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