Bem-vindo ao mundo codificado

Para começar o ano, depois de duas longas semanas afastado do blog (desculpem-me os leitores fiéis!), quero compartilhar um trecho de Vilém Flusser, em “O mundo codificado” (p. 69), que me faz pensar nesta nova era —e em projetos teóricos e literários em que pretendo me envolver neste ano que começa.

E que 2008 seja um ano excelente a você! =)

“Sempre existiram homens que tentaram se rebelar contra a roda do destino. Mas o que conseguiam com isso era apenas provocar ainda mais o destino. Édipo dormiu com sua mãe exatamente porque não o queria e, por esse mesmo motivo, teve de arrancar seus próprios olhos. A isso os gregos chamavam de ‘heroísmo’. Os pré-socráticos quiseram superar a roda pelo lado de fora, pela via da transcendência. Eles acreditavam que mesmo a roda, para poder se mover, tinha de ter um motivo, um motor. A idéia desse motor imóvel situado além do tempo, desse motivo não-motivado em si mesmo, idéia aprimorada posteriormente por Aristóteles, é fundamental para se pensar o conceito ocidental de Deus.

Muito antes dos pré-socráticos, porém, surgiu na Mesopotâmia um tipo de heroísmo bastante diferente. Tentemos nos colocar no papel de um sacerdote sumério. A partir de suas previsões, tentava decifrar o mundo que girava sobre rodas. Via o nascimento, a morte e o renascimento, via a culpa e a expiação, o dia e a noite, o verão e o inevrno, a guerra e a paz, dias de prosperidade e de miséria, e via como essas fases estavam como que engrenadas umas com as outras de modo cíclico. A partir desses ciclos e epiciclos, o sacerdote podia interpretar o futuro —astrologicamente, por exemplo— não para evitá-lo, mas para profetizá-lo. E de repente lhe ocorreu a incrível idéia de construir uma roda que girasse na direção contrária à da roda do destino. Uma roda que, se colocada no Eufrates, poderia mudar a direção das águas, de modo que, em vez de fluírem para o mar, seriam conduzidas para os canais. Do nosso ponto de vista atual, esse era um pensamento técnico. Mas, para aquela época e naquele lugar, representava uma ruptura difícil de ser compreendida. A invenção da roda rompeu o círculo mágico da pré-história, fraturou o destino. Abriu o caminho para uma nova forma de tempo —a história. Se há alguma coisa quemereça ser chamada de ‘catástrofe’, essa coisa seria a roda d’água.”

Na mesma linha, quando os atuais sacerdotes transformaram tudo o que resta em bits e bytes, abriram também caminho para uma nova forma de tempo. Um tempo que, como diz Castells, é atemporal. Um espaço/tempo digital, que cada vez mais prescindirá da realidade física.

Então, no espírito de Ano Novo, bem-vindo a uma nova forma de tempo. Bem-vindo ao mundo codificado… ;-)

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3 comentários sobre “Bem-vindo ao mundo codificado

  1. Ótimo! Excelente trecho, Madureira!
    Feliz Ano Novo para você e para os
    que, assim como eu, acompanham
    o “Clico, logo existo”. Abração!

  2. Pingback: Tags para o mundo real « Clico, logo existo

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