As aventuras de um micreiro, capítulo 1

Há cerca de seis anos, empolgava-me a idéia de escrever. Especialmente crônica, estilo de texto que parece conviver bem com minha personalidade apressada e minha percepção hiperativa. À época, editor de Informática da Folha Online, lancei uma série de textos em uma coluna semanal que possuia, entitulados “As aventuras de um micreiro”. A idéia era capturar momentos ímpares da relação homem-computador, que, já então, parecia algo que cresceria a ponto de tornar-se indissolúvel.

De maio a dezembro, publiquei ao todo oito textos, sete de minha autoria. Mas se os textos pararam em 2002, minha vontade não ficou por lá —e vou recomeçar meus exercícios literários aqui no Clico, logo existo. Primeiro, republicando os textos de minha autoria daquela época (é um exercício interessante perceber que, se a quantidade de memória de um PC àquela época era de 64 MB ou 128 MB, muitos dos princípios continuam os mesmos). Depois deste início, pretendo retomar a autoria de uma crônica semanal, no contexto da tecnologia, da Internet e de um futuro cada vez mais codificado.

Para o pontapé inicial, então, aí vai o capítulo 1, publicado originalmente aqui.

As aventuras de um micreiro, capítulo 1

Estante de mogno cheia de livros. Na segunda prateleira a partir do alto, umas coisas maiores, brilhantes, com letras coloridas. Caixas de software. Programas de edição de texto, planilha, editor gráfico, antivírus, agenda, enciclopédia. Tudo original.

Mas naquela semana seu computador de marca pifou. Com todo seu trabalho dentro. Irritado, ele vai até a dispensa. Logo encontra a caixa onde deixou os manuais do aparelho. Naqueles papéis deveriam estar os telefones do suporte, e o micro ainda estava na garantia.

Puxa o telefone. É uma atendente eletrônica. Disque um para comprar, dois para conhecer nossos produtos… e, depois de todo o conjunto de números naturais, chega o nove, para suporte técnico.

Disca o nove. Espera. Minutos parecem horas ao telefone quando tocam essas musiquetas de espera. Atende um rapaz cujo nome ele sinceramente não conseguiu entender. “Gewrioujhlsuportetécnicoboatarde”. Boa tarde? Meu computador novinho pifou completamente, meu amigo! Nem ligar liga!

O atendente abriu uma ocorrência. Pediu para que nosso personagem levasse o equipamento até um determinado posto de atendimento. Ele levou. E seu pobre computador ficou por lá durante duas semanas. Ligava, mas não tinha notícias.

Depois da extensa avaliação técnica, o resultado. O defeito na placa não era coberto pela garantia estendida de três anos. Mais de mil reais para ter o micro de volta. Mil reais? Essa porcaria trava a toda hora, pifa e ainda tenho que pagar mil reais?

Até então ele não tinha comprado um joguinho pirata sequer. Mas isso foi a gota d’água. Ele teve seu dia de fúria.

Ele não autorizou o conserto. Foi buscar o computador. Ligou imediatamente para o Paulão, colega dele que trabalha com informática.

“Paulão! Tudo bem? É que meu computador pifou e os caras da autorizada querem me cobrar mil reais para o conserto. Você pode dar uma olhada?” É claro que o Paulão pode.

Tanto pode que até veio à casa do nosso personagem no dia seguinte. Trouxe sua caixa de ferramentas. Abriu o computador e, depois de quinze minutos e um fio de solda, ligou a máquina: tudo funcionando.

Paulão recomendou que ele realmente trocasse a placa, mas não precisava ser naquele momento. Qualquer problema, era só ligar para o celular do Paulão. Cinqüenta reais, e o micro de volta.

Um mês se passou. Ele não queria correr riscos. Ia trocar a placa, mas ligou para o Paulão e resolveu trocar o micro inteiro. O antigo entrava como parte de pagamento.

Foi até a loja do Paulão na Santa Ifigênia. Montou a configuração que queria —inclusive com aquela placa de vídeo de última geração para jogar, afinal, computador não é só trabalho. A máquina ficou bem legal.

E ele ainda pagou em três cheques, sem juros. Recebeu uma “nota”. Sem valor fiscal, claro. Mas com um ano de garantia.

A garantia do Paulão.

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