As aventuras de um micreiro, capítulo 2

Continuo a série “As aventuras de um micreiro”, com o segundo capítulo (texto original aqui). Engraçado notar que esse texto é datado —fala de uma época que já passou, em que era comum gravar CDs de áudio, e aparelhos que reproduziam MP3 ainda eram raríssimos, coisa de elite (lembro de um Expanium, da Philips, que chegou no Brasil custando R$ 720; hoje é possível achar toca-MP3 com mais capacidade por quase um décimo disso).

E esta é a graça da tecnologia. Ela quer vencer o espaço, o tempo. Penso numa imagem —a tecnologia como Dom Quixote, não diante de um moinho, mas diante de um carrilhão. Porém, incapaz de vencê-lo, eterno, mais parece o ponteiro deste carrilhão, ao ser referência de época àqueles que buscam saber a hora… confira o texto completo a seguir.

As aventuras de um micreiro, capítulo 2

Sensacional. Ele estava voltando para casa com um tubo de cem CDs na mochila. Tinha acabado de passar na loja do Amaral, lá na Santa Ifigênia. Oitenta reais. Aquele Dr. Hank, de 16x. Chorou um pouco e ainda descolou um descontinho de dez pilas.

Esse era o sonho do micreiro desde o dia em que, com seu primeiro salário no estágio, comprou um gravador de CDs para seu computador.

Finalmente aqueles 1.847 arquivos MP3 que ele tinha baixado da internet iam sair do computador. Já imaginava aquele discman velhinho e surrado dentro da mochila, no caminho para o trabalho, para a escola, para qualquer lugar.

Pulou do ônibus e chegou em casa num instante. Sem cumprimentar a mãe nem o cachorro, subiu para o quarto e ligou o computador. Ele tinha pressa.

Queimou um. Quinze músicas. Depois outro, uma coletânia. O terceiro foi só com música clássica. O quarto, uma cópia do CD daquela banda britpop que seu amigo tinha emprestado. Duas horas tinham se passado.

Janta? Só a mãe gritando na escada. “Não vou chamar mais!”, ameaçadora, vociferava. Banho? Ah… deixa pro dia seguinte. Queimar CDs, isso sim.

O sexto foi um de músicas variadas. O sétimo, uma sequência de gravações ao vivo raríssimas de Rick Wakeman, aquele tecladista do Yes, que seu pai tinha-o ensinado a gostar.

E depois veio Frank Zappa, Dixie Dregs, Focus, Pat Metheny, Frank Gambale e, para completar, Weather Report. Mas, para não dizer que tinha gosto elitizado e só ouvia músicas que não encontrava em nenhuma loja de CD de seu país, também gravou uns com Lenny Kravitz, Madonna, Santana, Strokes, Van Halen e (mesmo sem confessar para ninguém), outrozinho com Jota Quest e Paralamas.

No dia seguinte, saiu de casa com oito dos cem CDs na mala. E não parou de ouvir o dia inteiro. Foi e voltou. Ouviu de novo. Tudo o que ele gostava, tocava pouco ou nada no rádio —e ainda sem propaganda e locutores chatos!

E assim seguiram-se os dias. Ao cabo de duas semanas, ele tinha queimado o tubo inteiro. Cem CDs.

Mas então o programa que ele usava para pegar MP3 na internet saiu do ar. Foi fechado a mando da Justiça, processado pelas gravadoras.

Voltando para casa naquele dia, ele pensou que seu futuro não seria mais o mesmo. Agora, ele estava sem CDs. Não poderia mais gravar nada. E seria presa, de novo, da indústria cultural.

E ele estava certo. Chegando em casa, estranhou o carro de polícia na porta. O vizinho, músico profissional, tinha dado parte. A PM revistou seu quarto, encontrou e apreendeu o tubo de CDs. O micreiro foi em cana.

Sorte que encontrou vários amigos na prisão.

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3 comentários sobre “As aventuras de um micreiro, capítulo 2

  1. muito boa a crônica. muito boa a idéia (não sabia dessa coluna). essa “ficção científica pós-moderna” é instigante… sobretudo quando bem escrita. vou cobrar mais! abs

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