Perdemos a memória; agora é a vez das sinapses

A Ana Brambilla publicou um post bem bacana sobre um estudo da University College London, segundo o qual há carência de crítica entre as pessoas que nasceram na era digital. Decidi então discutir o assunto, que julgo extremamente valioso para compreender a geração atual —e, diante desta compreensão, formas de abordagem educativas, seja para alunos ou filhos (pois é, já preciso começar a pensar nisso… =) O estudo faz um alerta necessário e importante: primeiro, perdemos a memória; agora, será a vez das sinapses.

Antes de tudo, sobre o autor deste: sempre me considerei privilegiado por ter nascido numa época em que o videogame já existia, mas ainda era só uma fração do divertimento diário —sim, eu fiz parte da geração que ainda jogava bola e brincava de esconde-esconde.

A Ana considera a desvalorização do texto vem da cultura videoclíptica dos saudosos anos 80. Perfeito —sempre costumo culpar a televisão antes da Internet; muito da cultura de massa e do emburrecimento social vem da adoção desmedida deste meio de comunicação, que sempre veio sem manual de instrução. E neste ponto, insisto —comunicação deveria ser disciplina de ensino fundamental, para que desde criança a gente soubesse como lidar com a mídia.

De qualquer forma, concordo plenamente com o estudo, quando os cientistas dizem que a falta de leitura realmente prejudica a cultura analítica. Eis meu ponto: no fundo, Pierre Lévy viajou quando disse que o hipertexto é característica absurdamente nova e típica da Internet. As ligações entre dados são a característica básica da mente humana, e nossa capacidade de ir e voltar num texto, num livro… concordar ou discordar do autor, recordar de outros trechos, outros livros, outras cenas da vida enquanto lê: quer mais interatividade que isso? ;-)


(Em 1953, obras como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, já denunciavam a falácia da interatividade pela máquina como algo articifial, que dava uma falsa impressão de pertencimento coletivo)

O primeiro passo foi transferir nossa memória para as máquinas. A Ana dá um bom exemplo com a agenda do celular —é de coisas como essas que filmes como Fahrenheit 451, de François Truffaut, falam. Nem dos aniversários dos amigos eu lembro mais —o Orkut ou meu Palm fazem o trabalho por mim.

O segundo passo, no entanto, é mais perigoso —a perda das sinapses. Ao fazer ligações entre informações automaticamente, os computadores, a Internet e buscadores como o Google (nesta ordem; e não ao contrário) deixam a mente mais preguiçosa. Você não precisa mais saber sobre algo, mas onde procurar sobre algo. Flácidos, nossos neurônios daqui a pouco precisarão de academia —viu pessoal do hype? E, então, estaremos cada vez mais presos no labirinto de Dédalo.

Será que exagerei? Ou isso é um sinal de que faz cada vez mais sentido para mim sair da cidade grande? ;-)

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Um comentário sobre “Perdemos a memória; agora é a vez das sinapses

  1. Eita, moço… Não saia da cidade grande, não! Graças a ela, em todos os seus benefícios e percalços, é que desenvolvestes essas percepções tão afinadas.

    Obrigada pela referência e pela reflexão. É incrível como nossas idéias batem. Menos nesse lance de virar interiorano. E olha que eu já passei por essa experiência ;-)

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