Sobre Twitter e o monólogo da autopromoção

Sempre acreditei na Internet como diálogo. Quando pensei em começar a estudar jornalismo colaborativo, apesar de já existirem gurus reconhecidos no país, pensava exatamente na possibilidade de restabelecer um diálogo perdido há tempos entre meio de comunicação e público —se é que um dia ele existiu.

Busquei sair da Engenharia e cair nas humanidades porque achava, realmente, que “inovador” seria algo ácido, que corrompesse estruturas prestabelecidas —e não as reforçasse. Hoje me descadastrei de uns cinco twitters —estranhamente, a maioria está no Twitterposter. E por quê? Seria porque não aguento o ritmo de atualizações? Balela…

O que irrita é ver uma ferramenta de diálogo usada como um palco para um monólogo de surdos em busca de autopromoção. Rede de relacionamentos (para usar a palavra em português) não deveria ser algo que nasce por similaridade de gostos e pensamentos? Acredito que sim. Mas estes tempos, parece que não.

O monólogo então torna-se algo diametralmente oposto ao “inovador”, ao ácido. “Desconferência” deixa de ser algo realmente transformador, e torna-se algo mais parecido com: “não consigo emprego, como faço para ganhar dinheiro de formas alternativas?”.

Lembro de uma explicação que uma vez dei a um colega que estava começando a usar o Twitter. Disse a ele que aquilo não era Orkut. Microblog (assim como o sistema que originou o nome) exige diálogo, troca. “O Twitter é como uma sala de bate-papo assíncrona, só com gente que você conhece”, disse a ele.

Enquanto continuar o monólogo, não adiantarão os brados de blogueiros contra a “grande mídia”. Quê criticam, se mantêm o modelo? Parecem cegos rumo ao barranco. Não percebem que os “ditadores das massas” migraram de posição, nos velhos jogos estruturalistas de Wittgenstein —agora quem domina o mundo não é mais Cidadão Kane, mas Cidadão Gates. Ou Cidadão Page. E quejandos. Quem constrói código domina o mundo.

Mesmo que, aparentemente, tenhamos a sensação de liberdade ao produzir conteúdo próprio, na verdade o fazemos em cima de uma plataforma bastante lucrativa, da qual mesmo os “monetizadores” não tiram senão migalhas.

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2 comentários sobre “Sobre Twitter e o monólogo da autopromoção

  1. Oi Francisco

    Mesmo tendo largado a engenharia tu conservastes a falta de paciência seletiva, característica dos engenheiros. Te digo isso porque sou engenheira e larguei também. A engenharia, neh, pois a falta de paciência com algumas coisas ficou.

    Eu ainda não consigo usar o twitter, pois concordo contigo que ele se encaixa melhor para o diálogo assíncrono. Porém, por ser um diálogo público, me atrapalha.

    Geralmente eu uso mais no stilo “o que está acontecendo” e aí, fica bem rarefeito, pois não acho quase nada em volta com relevância para todos aqueles olhos.

    Estas tuas reflexões sobre o conteúdo e as plataformas pagas combina bem com alguns artigos que sairam esta semana na First Monday (vol 13)
    http://www.uic.edu/htbin/cgiwrap/bin/ojs/index.php/fm/issue/current/showToc

    abraço!

  2. Oi Madu!
    Bem bacana tua análise. E a definição do Twitter como algo “irritante” caiu como uma luva.

    “O que irrita é ver uma ferramenta de diálogo usada como um palco para um monólogo de surdos em busca de autopromoção.”

    Para diálogos pessoais, já inventaram o instant messanger.
    Para discussões públicas, já inventaram os fóruns, listas de discussão e Orkut.

    Agora, fazer do diálogo pessoal algo público só me faz acreditar em exibicionismo.

    beijo!

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