O público da Internet mudou (e foi culpa do sertanejo)

Primeiro foi o nerd. Depois, vieram os filhos da classe alta. Eles acabaram ensinando os pais, e também cresceram —então, de repente, todos tinham cartão de crédito e podiam abastecer os cofres do e-commerce. Na esteira veio a publicidade online, que ainda engatinha, muito distante dos milhões gastos com a televisão. Até que surgiu a dupla Tenório e Praense, e o sertanejo mudou a Internet para sempre.

Tenório e Praense são os autores da música “Chifrado na Internet” (abaixo; cortesia do Youtube). Ouvi no táxi, sexta-feira à noite, na volta de um curso de Arquitetura de Informação.

A dupla mostra como a Web já chegou à periferia —porém, não mais da forma galhofa de antes, com Jeremias, Maicon Nite ou misses do Orkut. A onda migratória da “elite cultural” (?!) brasileira do Orkut ao Facebook mostra exatamente isso. Está cada vez mais difícil para a Bélgica manter-se sozinha nos endereços virtuais da Web brasileira, que não tem vidro com insulfilm, cercas elétricas ou carro importado.

Isso me faz pensar algumas coisas:

  • A dita “elite cultural”, em vez de aproximar-se e compreender o populacho que tanto a enoja e amedronta, ficará ainda mais alheia ao país e lançada à culturas internacionais (vide a migração para o Facebook: a interface em inglês ainda forma uma barreira natural para a arraia-miúda);
  • Quem investe em mídias tradicionais vai ter que repensar onde encontrar seu público-alvo —sim, prepare-se para a invasão dos anúncios das Casas Bahia nos provedores de Internet em curto prazo;
  • Em vez de promover a compreensão, a Web manterá a segregação social e cultural que existe no Brasil.

Pois o público da Internet mudou. E a culpa toda é do sertanejo.

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4 comentários sobre “O público da Internet mudou (e foi culpa do sertanejo)

  1. Dileto e preclaro Madu,
    como diriam os advogados do Law & Order… “Objection!”

    Acerca de Internet, público da Internet, Orkut, Facebook, nada sei – portanto, só tenho a concordar com sua preleção.

    Ocorre, todavia, porém, obstando o título da mensagem, que a tal música “Chifrado na Internet” nada tem de forró.

    Sim, observei que em nenhum momento do texto o amigo diz isso, mas o título pode levar os dignos leitores a erro.

    Forró pode ser considerado um macrogênero musical típico da região Nordeste do Brasil, algo como um guarda-chuva de ritmos locais, entre eles o baião, o xote e o xaxado, todos e mais tantos levados para o mundo pelo imortal, e já morto, Luiz Gonzaga, entre muitos outros intérpretes.

    O macrogênero da dupla Tenório e Praense é outro; sim, também macro, o chamado sertanejo, relacionado geograficamente às regiões Sudeste e Centro-oeste do país, com abocanhamento parcial da região Sul. Um dos gêneros que compõem o grupo sertanejo ainda está em formação, e ainda não foi definido claramente. Há quem chame de sertanojo ou breganejo. Neste grupilho eu enquadraria a “música” que suscitou o post. Uma coisica qualquer.

    E há, nesse meandro, a questão comercial. Tenório, não conheço. Já Praense, tem histórico, tem história, especificamente no ramo da música caipira, um dos mais nobres do macrogênero. Por tal histórico, arrisco dizer que a situação financeira do músico estava no bico do corvo. Só isso pode explicar seu desvio de conduta rumo ao oásis mercadológico que vende pérolas podres como “Chifrado na Internet”.

  2. Moreno!
    Sobre Internet eu adoro peleja, mas quem sou eu para discutir com você quando o assunto é música? hahaha
    Erramos! =D
    Abração!
    Madu

  3. Pingback: Erramos: a culpa é do sertanejo « Clico, logo existo

  4. Em blog de qualidade até os comentários são aulas de cultura e civilidade! Quanto ao post em si você tem toda razão. Esse tipo de atitude da Belíndia eu já li a uns dois anos atrás no Multiply com a elite louvando o fato da barreira linguística manter a patuléia de fora do reino Belga. Lamentável. Como também é lamentável o fato do povo em sua maioria querer se manter na mediocridade do pop culturalmente colonizado e esculachado, embora a cultura popular seja rica e efervescente. Viva o acesso a internet mas viva também a necessidade de contribuirmos com cultura de qualidade. Mamonas Assassinas entendiam do riscado. Abraços.

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