Jornal sem primeira página, mídia sem diálogo

Os principais jornais da Eslováquia foram para as bancas hoje sem notícias na capa, relata o Webmanário. Quem olha de fora pode até achar algo nobre —que está, porém, por trás de uma atitude unilateral de uma série de donos de jornais?

Concordo com a proteção da mídia em relação aos direitos de resposta muitas vezes imersos em interesses políticos e comerciais. Da mesma forma que concordo com um (em tese) jornalismo “imparcial”, que possa ouvir e dar espaço a diferentes pontos de vista.

Porém, a atitude da imprensa eslovaca soa mais como a falta de abertura absoluta às vozes externas à grande imprensa. Afinal, o que diferencia esses interesses políticos ou comerciais das partes que se sintam prejudicadas dos interesses do próprio veículo? Ou os veículos de imprensa são entidades sem fins lucrativos e sem visão política?

Na verdade, o ponto é exatamente este: a diferença. Porque os veículos só podem estampar seu próprio interesse político e comercial, e não outro. Ele prefere estampar uma página em branco a estampar outro interesse que não seja o seu.

Cada empresa jornalística tem seus próprios interesses comerciais. E eles podem muito bem levar o noticiário para este ou aquele lado. Podem contemplar determinadas fontes e excluir outras. Claro, matéria paga é algo que não existe há tempos na grande imprensa —não aquela paga diretamente ao redator, editor ou editor-chefe. Mas quem está dentro da mídia sabe que a diferença entre o dono do jornal provinciano do interior e os barões da mídia é apenas o número de zeros do faturamento da publicidade.

Por isso acredito na colaboração. E por isso a colaboração não acabará com o jornalismo. Só o devolverá para seu verdadeiro processo na sociedade —uma das vozes, e não A voz.

(Tomara que a Web 2.0 bem aplicada também consiga devoltar aos governos sua verdadeira função… já imaginou uma constituição federal “wiki”? ;-]

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4 comentários sobre “Jornal sem primeira página, mídia sem diálogo

  1. Madu,

    O diálogo deve existir com quem quer dialogar. É sistemática a negação ao “outro lado” _pessoas públicas e instituições se recusam a dar declarações na véspera da publicação de reportagens, e depois delas reagem de forma virulenta e apelando à lei.

    O direito de resposta, no meu entendimento, deve ser assegurado quando comprovados erros de informação ou de procedimento jornalístico (como nem sequer ter procurado o “outro lado”).

    Para todos os outros casos, a simples prática do bom jornalismo resolve.

    abs

  2. Alec,

    Penso um pouco diferente neste aspecto.

    Por experiência própria, sei que o “outro lado” muitas vezes é feito como um “lavar as mãos” —entra-se em contato com a pessoa ou empresa com uma versão dos fatos já consolidada, muitas vezes a poucos minutos do fechamento da reportagem. É um tiro a queima-roupa. Não é a coleta justa e equilibrada de informação rumo à construção de conteúdo. E então o jornalista acredita ter cumprido sua função meramente por ter feito uma ligação e conseguido suas aspas…

    Perdoe-me até Andrew Keen, mas não vejo o conteúdo gerado por usuário como mais amador que isso.

    Claro que muita vez há interesse corporativo. Também já vi como o outro lado do balcão se organiza —e se defende com técnicas de guerrilha, com media training e sessões de perguntas e respostas para que os executivos ou políticos saibam exatamente como sabonetar a imprensa.

    Mesmo assim, a página em branco só consegue simbolizar, para mim, o quão “privado” ainda é o espaço da grande mídia, especialmente o das tradicionais em papel ou meio eletrônico. E o quanto este “privado” afasta a imprensa de sua missão pública.

    Abraço!

  3. Por isso falei em “a simples prática do bom jornalismo”.

    No bom jornalismo, não pode existir a figura do outro lado procurado “com uma versão dos fatos já consolidada, muitas vezes a poucos minutos do fechamento da reportagem”.

    abs

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