Medo de blogar

“O tempo instantâneo e sem substância do mundo do software é também um tempo sem conseqüências. ‘Instantaneidade’ significa realização imediata, ‘no ato’ —mas também exaustão e desaparecimento do interesse (…) As pessoas que se movem e agem com maior rapidez, que mais se aproximam do momentâneo do movimento, são as pessoas que agora mandam. E são as pessoas que não podem se mover tão rápido —e, de modo ainda mais claro, a categoria das pessoas que nãopodem deixar seu lugar quando quiserem— as que obedecem.”

Eis o que diz Zygmunt Bauman em seu “Modernidade Líquida” e que me fez parar para pensar numa sensação que há muito tenho, mas que até hoje não tinha registrado em palavra —sim, eu sinto medo de blogar.

Há semanas em que fazer parte da roda da informação na mídia social dá um senso de vida tremendo. Dá para se sentir no olho do furacão; é quase como o efeito de uma droga, e essa alucinação faz com que me sita completo, mais junto das pessoas, mesmo que esteja a quilômetros de distância e não converse direito com meus colegas de trabalho da baia ao lado (aliás, você já tinha feito a relação da palavra “baia” ao conceito de gado?).

Porém, há outras semanas em que o efeito da droga passa. Um momento de retração, uma dúvida sobre as próprias idéias, um abalo no sorriso plastificado que boa parte leva no rosto (e que às vezes contamina). Pronto —o turbilhão parece algo sem sentido, e o mundo de informação a que se é submetido dia após dia parece um monstro, e não mais traz a sensação de inclusão, pelo contrário.

Tanta é a informação que o excesso causa sensação de exclusão. “Estou fora do mundo se não consigo ler os 256 twitters, os 91 e-mails, os 32 SMSs etc.” Sim, estou fora do mundo —porque ao adentrar nesse turbilhão virtual, não mais faço parte do mundo real, e a relação de espaço/tempo real que travo com meus vizinhos, colegas de trabalho etc. já não está nos 100% em que poderia estar.

Ao mesmo tempo, esse poder-instantaneidade é superficial demais. Estava offline, fiquei sabendo do terremoto por meu pai, por telefone. Garanto que ele, assim como as pessoas fora do universo geek, não sabe usar tags no Twitter para acompanhar um terremoto e fazer, depois, uma linha do tempo… e mesmo quem postou nessa linha do tempo informações que não a mera percepção do fenômeno usou como fontes a mídia tradicional. Mas isso já é o assunto do próximo post… ;-)

“O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou…”

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