Twitter, hard news social e vamos com calma

Dizem as putas velhas que, no bom jornalismo, “pode” não vira manchete. Poder, afinal, pode tudo. Licença bloguética à parte para o Alec Duarte —mas, creio, é ter fé demais no Twitter e nas ferramentas de microblogging acreditar que elas poderão salvar o jornalismo (ia ser ácido e dizer que é ter fé demais no próprio jornalismo, mas tudo bem…).

Para acertar o prumo da discussão, faz-se necessário retirar a empolgação com que os jornalistas geek-newbies nos apropriamos das novas plataformas de publicação. Ora… já viu um índice de notícias de um portal? Agora veja o Twitter… é irrefutável a semelhança de um e de outro, principalmente quando empresas como a tradicional BBC, a muderninha Wired, blogs como o Boing Boing ou blogueiros como este ou este usam o microblog para gerar links para seus próprios sites.

No fundo, o Twitter parece ter criado uma nova espécie de hard news —o hard news social. E isso também é jornalismo colaborativo. Em vez de ler índices alimentados por robôs de agências, que geram aberrações como uma pauta de infografia da AFP no meio do noticiário, tenho contatos no Twitter que, em meio às suas digressões diárias, indicam para mim um punhado de leituras relevantes para eles, e que, portanto, devem ser relevantes para mim também.

Quem muito pode tirar proveito disso é o pauteiro, figura que rareia no jornalismo de papel e cujo papel, na Internet, quem assumiu foi o próprio editor ou repórter. Alguém que está na rua e “twitta” traz a rua para dentro das redações, que hoje em dia vão atrás de matéria-prima pelo telefone (quando muito) —foi-se o tempo do jornalismo romântico, em que se gastava sola de sapato. Hoje em dia, sapato de jornalista é fuleiro para fazer tipo. A calça vem rasgada de fábrica, na maioria arrasadora dos casos.

Como bem anotou o Oito bits e meio, o terremoto foi sentido antes no Twitter. Mas depois da sensação, vem a necessidade de informação. E aí, basta observar qualquer linha do tempo twitteira (como esta ou esta) para perceber que as fontes se voltam todas para a grande mídia.

E aí temos um ciclo vicioso e perigoso, principalmente no caso do Brasil, em que blogueiro virou sinônimo de colunista (me incluo). Porque se a blogosfera só registra o hard news, mas depende da grande mídia para apurar, continuaremos com as mesmas fontes de informação oficial. É como se surgisse um vácuo entre o poder institucional, que serve a imprensa de releases, e o registro pessoal, nas ruas, via blogs ou twitters. E com isso, sem choque, como vamos mudar este modelo?

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7 comentários sobre “Twitter, hard news social e vamos com calma

  1. Madu,

    Viva, como é bom debater idéias.

    Uma, que está na prateleira das verdades irrefutáveis, é que as putas velhas do bom jornalismo têm sempre razão.

    Vamos às outras _idéias, não verdades irrefutáveis, claro…

    Twitter é jornalismo colaborativo, sim. E de mão dupla. E rápido. E rasteiro, como não.

    Sendo mais realista, é um RSS com interface amigável (ainda que esquisito, é mais agradável que a sopa de links dos leitores de feed clássicos).

    Vejo ali o logo da BBC ou do El Pais, mas eles podem me chamar a atenção tanto quanto um micropost de cidadãos ordinários que, se afinal de contas eu “sigo”, é pq aposto que dali pode sair, não a apuração, mas um relato. O auxílio do microblogging ao jornalismo “propriamente dito” passa também por aí. Pode pautar. Pode alertar. Pode sugerir leituras que ajudem na apuração. Pode discutir. Pode promover (como era a ênfase de texto meu citado por você).

    Poder tudo pode, né?

    Agora, só jornalista “profissional” navega pela lista de notícias. É meu hábito tb. O feed da pauta de infografia da AFP perdido ali é mais revelador não sobre a inadequação do feed, mas da incompetência de quem deveria administrá-lo.

    O mesmo que, possivelmente, é responsável pela edição do noticiário para quem, depois do abalo, a twittosfera se voltou, como você corretamente apontou.

    Quando eu penso no que as ferramentas on-line podem fazer pelo jornalismo em papel (é esse que precisa ser salvo, confere?), imagino a gente nas redações erguendo comunidades em redes sociais, dialogando com os leitores via blog, conhecendo as necessidades do nosso público, turbinando pautas, encontrando personagens.

    É nesse cenário que ferramentas instantâneas como o microblogging são ainda mais bem-vindas.

    abs

  2. Boa Alec,

    Concordo plenamente contigo sobre as putas velhas também. Tem muitas aí da Folha que costumo chamar carinhosamente de “dinossauros”, inclusive! hehehe

    Creio que essa será a tendência. Um jogo pro-am de troca de conteúdo, um jogo ganha-ganha, e não uma situação em que uma realidade substitui a outra.

    Agora, que o jornalismo de papel vai morrer, isso vai hein… dou uns dez anos pro papel digital começar a chegar com força no Brasil —e aí você poderá ter jornalismo em tempo real E reportagem de fôlego em cima de uma mesma plataforma. Não achas? =)

  3. Em Davos, previram para 2013. Catedrático (e tb setentão, não estará aqui para ser cobrado por isso), Philip Meyer diz será no primeiro trimestre de 2043.

    E eu… bem, eu não sei. Essa coisa de prever o apocalipse já deu errado três mídias atrás…

    Mas eu aguardo com ansiedade a popularização do papel eletrônico e o que poderemos fazer com ele.

    abs

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  5. Pingback: Na hora da tragédia, as redes sociais funcionam « Webmanário

  6. Caraca, Madu! Que troço é aquele do UOL? E por que os caras não tiraram ainda do ar?????

    Buenas, eu não aderi ao Twitter e estou resistindo ao máximo. Prefiro esperar a febre passar para ver se a coisa realmente vale a pena. Principalmente ao jornalismo.

  7. Pingback: Sobre jornalismo colaborativo, lado a lado com conteúdo profissional « Clico, logo existo

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