O diploma me faz jornalista?

Recebi esses dias em uma das listas de que participo mais um dos e-mails, sempre em tom sindicalista-desesperado, falando da defesa do diploma para o exercício do Jornalismo. Um “manifesto à nação” da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), cuja propagação foi pedida aos jornalistas e blogueiros da lista —mas que o próprio site da Fenaj não destacava até a publicação deste post, ou se trazia era escondido demais para tanto alarde. Sou jornalista formado —mas me pergunto: foi mesmo o diploma que me fez jornalista?

Diz o tal manifesto: “O Supremo Tribunal Federal (STF) está prestes a julgar o Recurso Extraordinário (RE) 511961 que, se aprovado, vai desregulamentar a profissão de jornalista, porque elimina um dos seus pilares: a obrigatoriedade do diploma em Curso Superior de Jornalismo para o seu exercício. Vai tornar possível que qualquer pessoa, mesmo a que não tenha concluído nem o ensino fundamental, exerça as atividades jornalísticas.”

Questiono-me sobre o século em que vivem os profissionais integrantes da Fenaj e do Sindicato dos Jornalistas. Corporativismo é a razão óbvia. Mas obsolescência é o que me parece estar por trás disto. Por um simples motivo: exercer funções jornalísticas independe do diploma faz tempo, e não requer que recurso extraordinário algum. Graças à Web, qualquer um pode exercer sua liberdade de expressão.

Sempre fui favorável ao diploma. Até que, formado, após dois anos ministrando aulas de graduação para Jornalismo e cursando meu mestrado em Comunicação, retornei à Escola de Comunicações e Artes da USP, só que agora como professor. Foi um semestre para confirmar o que meu orgulhoso diploma uspiano me fazia negar —o curso de Jornalismo beira a falácia. Estuda-se sociologia e filosofia (ministrada por sociólogos e filósofos frustrados, que vieram cair na área de comunicação) de maneira parca e rasa; de outro lado estudam-se as técnicas de cada meio de difusão de informação, como se isso não fosse material de ensino profissionalizante e estivesse muito aquém do que requer um grau superior de formação.

E a Comunicação, campo tão rico, tão vasto? Meu semestre de Teoria da Comunicação, em 1999 ou 2000, foi tão superficial que tive de buscar uma optativa sobre o tema tempos depois. História do Jornalismo? Ha! Uma verdadeira piada… com direito a professora questionando os alunos sobre “O que é aprender”, pergunta seguida de vexatórios 10 minutos de silêncio na sala. Outra vez, fui obrigado a procurar uma optativa do saudoso Jair Borin para saber um pouco do que havia se passado na história da imprensa do meu país. Pergunte-me se alguma disciplina tinha por leitura obrigatória a “História da Imprensa no Brasil”, do Nelson Werneck Sodré? Pergunte aos responsáveis pelo curso de Jornalismo se existe algum esforço em publicar o trabalho dos alunos em algum meio outro que não o papel malcheiroso do Jornal do Campus? Quando comparo o que estudei em cinco anos de ECA com o que as pessoas da FAU, da Poli, da FEA estudam, realmente tenho a sensação de que cursar Jornalismo foi uma grande brincadeira. O que só se ratifica quando você ouve da boca de um coordenador de curso da USP que a faculdade só é o que é por causa da Fuvest.

E então você se depara com trabalhos como a reportagem multimídia Entremuros de um Hospital-Colônia, da ecana Gabriela Agustini —de que fui banca avaliadora, na sexta-feira última— e percebe que foi executado todinho sem apoio algum da Escola, mas somente com o pulso da orientadora e da própria rede de contatos que a aluna criou. Realmente há algo de errado.

Certa feita ouvi uma frase comicamente realista. “O mundo tem uma bunda muito grande, e as pessoas precisam de muito papel para limpá-la”. Pois um diploma, nessas condições de formação, é um papel higiênico com carimbo da USP —e aqui cuspo no prato que comi, mas certo de que a história se repete de tanto que já ouvi de gente que se graduou em outros cursos de jornalismo pelo país.

Será, portanto, que Fenaj e Sindicato estão realmente se preocupando com o que merece atenção, ou estão apenas defendendo interesses corporativistas, para manter suas fontes de renda e sua função, cada vez mais anacrônica, diante de um cenário de mídia que já virou de século? Porque, realmente, se é para defender este diploma que eu e mais tantos outros tiram todo ano —juro que talvez eu tenha que mudar de lado.

Que se pense, pois, o Jornalismo —antes de defesas corporativas, precisamos de uma defesa conceitual. Torna-se necessário ousar mais no âmbito acadêmico, que, fora do anacronismo modorrento da universidade pública, ainda teima em reproduzir (e reproduz mal) o mercado a quem busca fornecer mão-de-obra. O momento é de transição, e manter o velho discurso sobre diploma da era da imprensa escrita só tornará os jornalistas ainda mais anacrônicos e dinossáuricos em tempos de Web.

Para concluir, vou usar uma citação de Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, como que para dizer que sim, ainda acredito no Jornalismo: “Face a todas as transformações tecnológicas com as quais nos defrontamos, devemos nos colocar a seguinte pergunta: de que problemas atuais o jornalismo é a solução? Se conseguirmos responder, então o jornalismo jamais desaparecerá.”

Ainda há como responder?

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12 comentários sobre “O diploma me faz jornalista?

  1. Caro Madu,

    sim, a Fenaj e o sindicato estão defendendo questões corporativas, mas isso é mais do que natural. Afinal, são associações classistas e têm que fazer isso, delas se espera esse tipo de defesa.

    O diploma é apenas a ponta do iceberg. As entidades classistas lutam pela manutenção de uma regulamentação profissional. A lei é clara, e ela determina que – para ter registro profissional de jornalista – é necessário portar o diploma. Acontece que desde 2001, uma enviesada contestação judicial colocou em xeque essa obrigatoriedade. Por isso, a defesa e a insistência com o diploma.

    Mas a questão é mais embaixo, Madu. Diploma não dá competência, não atesta habilidade. Em nenhuma profissão. Há médicos diplomados terríveis. Há advogados que passaram pelo exame da ordem que são detestáveis. O que está em jogo não é a competência, mas a habilitação para o um exercício profissional. O registro profissional é isso: uma habilitação, uma autorização para exercer uma profissão. Como uma Carteira de Habilitação, guardadas as devidas proporções. Posso muito bem saber dirigir, mas se não tiver minha CNH, não poderei fazê-lo. Se o fizer e se me pegarem, estarei fora da lei… Com o registro profissional, é o mesmo.

    Aliás, vejo que muita gente se indigna quando vê um caso de exercício ilegal da medicina. Ora, por que não o fazem com o jornalismo também? Afinal, o jornalismo também lida com coisas delicadas como a reputação, a honra e a vida pública das pessoas…

    Mas você tem razão: é precio que as escolas de comunicação mudem porque o jornalismo já mudou. É preciso que os sindicatos mudem porque o cenário já mudou. Só não acho razoável cortar a cabeça do paciente que está com enxaqueca. Temos é que melhorar as escolas, melhorar o ensino e a prática profissional, e não simplesmente decretar o seu fim.

    Um abraço

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  4. Concordo em gênero, número e grau com o Rogério. De fato o diploma não atesta a competência de um jornalista. Podemos provar isso a cada esquina. Porém, alguém pensaria três vezes antes de aceitar um projeto arquitetônico de alguém não formado. O mesmo deveria acontecer com o jornalismo. Respeitar a formação de um profissional, a sua habilitação. Muitas profissões estão conquistando isso aos poucos, como no caso das Ciências Contábeis ou na obrigatoriedade de um professor de séries iniciais possuir curso superior. Pode muito bem ser verdade que alguém sem diploma exerça o professorado de maneira mais adequada, mas respeita-se a habilitação por se acreditar que a habilitação lhe dá “poderes” a mais. E responsabilidades também.

    Quanto aos cursos de jornalismo: estes passam pelo mesmo problema de muitos outros cursos. A academia é superficial e aprende-se muito mais na prática que na teoria. Assim como inúmeros outros cursos, o de jornalismo precisa de uma reciclagem, de uma mudança, porque o jornalismo mudou.

  5. Acho que o objeto de discussão não é o curso de Jornalismo, e sim a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercer a profissão.

    Entre os países desenvolvidos, com uma imprensa forte, em quais deles o diploma é exigido por lei para a prática da profissão?

    Creio que essa desregulamentação é a única forma de pressão para que as as faculdades a reformulem os seus cursos de jornalismo, que são tão obsoletos quanto a tal “obrigatoriedade do diploma”.

  6. Flávio, acho que o curso entra em discussão também. É inevitável —pelo menos na minha forma de entender. Porque se um curso é forte e realmente forma uma classe, um caldo de cultura profissional, creio que seja muito mais difícil questionar se uma profissão precisa ou não de regulamentação.

    É exatamente esta a razão de acreditar-se, comumente, que um físico que escreve bem possa exercer o jornalismo —mas que um jornalista raramente seja visto na função de físico. Ou fazer jornalismo é só escrever bem? ;)

  7. Algum dos colegas aqui parou para pensar no quanto que o patronato quer que o diploma obrigatório seja extinto para arrebentar geral a categoria e achatar totalmente os já baixos salários pagos aos nossos tão apatiquinhos jornalistas que não fazem greve há quase 30 anos?

  8. Bah, Madu, eu estou de um outro lado ainda, que não crê no corporativismo, nem apenas na prática como legitimador da profissão.

    Venho de uma graduação excelente na PUC do Rio Grande do Sul. Até hoje sinto que o conhecimento que desenvolvi naqueles anos faz diferença no meu dia-a-dia.

    Isso mostra que é possível, sim, uma faculdade FORMAR um profissional, acrescentar a ele coisas que ele não aprenderia em nenhum outro lugar senão ali.

    E já que tem tanto jornalista mal-formado porque as faculdades são ruins, será que não exigir diploma vai melhorar o quadro?

    Honestamente, acho que não. Muito ao contrário.

    beijo!

  9. Caro

    Lamento muito pelo seu curso de jornalismo tão “frustante” quanto as aulas de filosofia de seus professores, mas discordo de sua opinião porque jornalismo não é “apenas” liberdade de expressão. A decadência de algumas escolas de jornalismo, e aí posso até incluir a minha, não significam que deve-se desobrigar o currículo para exercer a profissão mas, antes, repensar nos métodos e grade, jamais extinguir os quatro anos de formação. Eu precisarei de mais outo e não estarei pronto, talvez passe a vida tentando e não aprenda a ser jornalista, mas esses mesmos quatro anos bebendo das fontes que bebi na academia me dão noção da arma que pode ser a comunicação utilizada por pessoas que não conhecem os interesses políticos de quem está no poder e tem concessões de rádio e tv, além de jornais impressos e internet à vontade para usar e abusar em interesse de… de quem? de o que?

    Se passamos quatro anos na Univaresidade discutindo questões como ética e concesssões e não estamos totalmente pronto, imagine quem nem vai passar por isso mas apenas cair de “paraquedas”… enfim e o corporativismo é isso sim: trabalho com jornalismo e ganho 700 por mês: o senhor ganha quanto? Quer trocar de profissão comigo? Ganhar pouco não é direito apenas de jornalista, é direito de todo tarbalhador que faz sua obrigação com dignidade, e estão mais que certos aqueles que se organizam para reinvidicar melhores condições de trabalho e respeito à função.

    Lamento por sua frustração na academia e pela frustração que o senhor sente e, pelo jeito, deve passar também aos seus. É uma pena, mas certamente não ficarrá nisso, tenha certeza.

  10. Leonardo,
    Não consegui compreender direito sua opinião, e também vejo que não leste os comentários do post. Vamos por partes:

    1) Jornalismo realmente não é apenas liberdade de expressão. É uma arma, como você bem disse, e como atesto no post ao dizer que: “Que se pense, pois, o Jornalismo —antes de defesas corporativas, precisamos de uma defesa conceitual. Torna-se necessário ousar mais no âmbito acadêmico, que, fora do anacronismo modorrento da universidade pública, ainda teima em reproduzir (e reproduz mal) o mercado a quem busca fornecer mão-de-obra.” Ou seja: sou sim a favor de um diploma. Mas de um diploma que, como muito bem disse a Ana Brambila logo acima, realmente FORME um profissional.

    2) Você fala do “paraquedas”… mas que poder um jornalista mal-formado tem em relação ao paraquedista para “transformar” uma mídia completamente ligada ao poder? Pense bem, meu caro… dá na mesma. Portanto —e isso que quis dizer com o post— ter um diploma de uma formação anacrônica e não tê-lo equivalem-se.

    3) Sinto muito que você ganhe só R$ 700 por mês. Talvez seja porque você acha que ganhar pouco é “direito” do jornalista. Discordo de você. É exatamente reflexo de sermos incapazes de formar uma classe profissional e, portanto, exigir algum tipo de direito. E aqui, meu caro, digo-te que já vi paraquedista mais engajado com a causa profissional do que muito jornalistinha formado por universidade playboy aqui na minha cidade… essa visão de que “trabalho com dignidade” = “salário baixo” tem que mudar, meu caro. Se um dia quisermos um mundo melhor, o Dick Vigarista precisa parar de ser valorizado. Não acha?

    4) Não precisa lamentar por minha frustração não. O melhor professor que tive na universidade dizia que o jornalista tem de ser alguém indignado. E isso 100% do tempo. Se perder essa indignação, se conformar-se com o mundo, perderá qualquer capacidade crítica, qualquer chance de enxergar o lado obscuro do status quo para evidenciá-lo e tentar transformá-lo. Para os que preferiam ver o mundo em cor-de-rosa e andar com o carro do ano, ele indicava que procurassem outra profissão. Veterinária talvez. E isso na aula magna do curso.

    Portanto, meu caro, cuidado com o corporativismo anacrônico. Defender a profissão e o diploma usando como argumento o fato de que “nunca estarei pronto” é um perigo. Alguém tem que nos levar a um status “semi-pronto”, ao menos. E hoje, é esta minha crítica, os cursos de jornalismo, como em sua maioria estruturados, estão longe disso.

    []s

  11. Pingback: o texto de Francisco Madureira é de uma lucidez ímpar na análise da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Do curriculuns dos cursos, à discussão mais ampla sobre liberdade… | BlogueIsso!

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