Dilemas do webwriting jornalístico diante do Google Trends

Quero dividir uma situação que rolou hoje com minha (fantástica; mas já aviso: ninguém tasca!) equipe aqui no trabalho. É cada vez mais comuns nas redações Web que os jornalistas comparem termos de busca no Google Trends na hora de escrever matérias e, principalmente, dar título a elas. Eis então que nos deparamos com um dilema editorial que pouco é discutido entre jornalistas (e parece ainda não fazer parte da discussão nas universidades).

Na eterna busca pela audiência, você se depara com situações em que, por exemplo, tem que comparar termos como calçados e tênis, para saber qual deles é mais buscado —e, por aí, fazer o recorte temático de determinada pauta ou material. O mais bizarro aconteceu quando o termo tenis (sic), sem acento, foi agregado à comparação. E pasme —ele é tremendamente mais buscado no Google, porque (infelizmente):

  1. O brasileiro tem pressa e esquece do acento;
  2. O brasileiro não se preocupa com acento na hora de fazer busca, já que o Google deve achar de qualquer jeito
  3. O brasileiro não sabe escrever
  4. Todas as anteriores (?!)

Enfim, a discussão por e-mail chegou ao melhor ponto de fervura com a sugestão de usar o termo tenis (sic) sem acento mesmo (claro, no melhor espírito de ironia da melhor equipe com quem já tive o prazer de trabalhar). E aí soou o alarme do absurdo e do perigo que pode ser pautar-se pelo espírito do tempo. E aí a ética faz acionar o freio, fechar o browser e esquecer das técnicas de SEO (Search Engine Optimization).

A gente usou o freio. Mas fico pensando até que ponto os jornalistas-audiência, as assessorias de imprensa, as agências de publicidade vale-tudo, os blogueiros de aluguel e as prostitutas do clique em geral chegam para angariar públco.

O freio faz parte da práxis ética que o Savazoni tão bem citou em suas considerações sobre a Newscamp —e isso, como a Renata de Freitas bem pontuou no evento, não muda com o passar do tempo, porque está vinculado com a ética que engendrou a profissão “jornalista”, e quem sabe até a ciência jornalística. Sem essa ética, estamos condenados a ceder eternamente à pressão do público, esquecendo do nosso juramento profissional que, se não é a Hipócrates, deveria carregar o mesmo peso: salvar ou perverter mentes, vidas.

Para lembrá-lo:

“Juro cumprir minhas obrigações como jornalista dentro dos princípios universais de justiça e democracia, coerente com as idéias de comunhão e fraternidade entre os homens, para que o exercício da profissão redunde no aprimoramento das relações humanas que resultará na construção de um futuro mais digno, mais justo, para que os que virão depois de nós.”

Na parte do aprimoramento das relações humanas e do futuro mais digno, acredito que uma das missões que temos é manter o uso correto da língua (claro, sem xiismos lingüísticos).

Por isso, entre jornalismo e Google Trends, ainda fico com o primeiro. E você? ;)

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8 comentários sobre “Dilemas do webwriting jornalístico diante do Google Trends

  1. putz. na minha total ignorância aqui, lembro-me de ter ouvido algumas vezes que não deveria usar acentos em buscas. tinha uma história de que o acento atrapalhava, tornava a coisa menos eficiente… enfim, isso foi há muito tempo, e nunca soube se procedia. abraços.

  2. Madu,

    O Google Trends é uma ferramenta. É útil saber se as pessoas buscam mais eleição ou eleições (já adianto: preferem eleições). Mas fica por aí. O martelo, que também é ferramenta, é excelente para pregar, mas pode fazer um baita estrago se usado para bater em alguém. Direcionar um texto por causa de uma ferramenta me parece o típico caso de martelada na cabeça.

  3. Total, total! E o pior é que tá cheio de site pequeno fazendo isso para “aparecer” no Google. E aí eles levam a cauda longa… No final das contas, é o império da ética do clique. Nessas horas é que a gente percebe a importância da ética jornalística na hora de fazer Internet (inclusive!).

  4. Oi Madu,

    Quem nunca pensou assim: “Se não é encontrado no Google, então não existe”! Isso v ale para sites, hotsites, autores (risos) e palavras.

    Agora vamos pensar outra coisa, quando estamos com dúvida de como escrever uma palavra, ou, como o termo é citado com mais frequência, nós também buscamos o Google, agora pense, se todos começarem a escrever errado, então o errado passa a ser certo? Ou o certo não existe mais? (Porque são os usuários que constroem a internet e ponto final!)

    Será que a evolução da língua deve ser assim? Eu tenho a plena certeza que não, eu prezo pelo uso certo da língua, até mesmo porque facilita a compreensão de todos , usuários que usam leitor de sites, estudantes estrangeiros que estão aprendendo português e também todos os indivíduos do país (devido a variação linguística). Portanto, como você mesmo falou, é nesses momentos que devemos perceber a relevância da ética jornalística também na internet.

    Um abraço

  5. Pingback: Por que otimizar títulos de notícias para SEO e (por que não fazê-lo!). O Paul Newman que o diga. « intermezzo

  6. Entendo suas considerações e acho que sua preocupação é bastante atual, mas o jornalismo não pode fechar os olhos para a realidade da indexação. Você está certo quando acha abusrdo alguém pensar em escrever tênios sem acento porque no Google a gramática não prevalece. Só acho que podemos buscar o meio do caminho. Acredito muito numa teoria que defendo que é o jornalismo de indexação. Estou cansando de ouvir colegas reclamarem do lixo existente na internet. Há muito lixo mesmo, mas quando o pessoal que produz conteúdo relevante entrar no jogo da indexação a situação não será a mesma. Por isso, o jornalismo de indexação deve ser uma realidade compartilhada por quem acredita na qualidade dentro da rede.

    • Super legal o conceito de “jornalismo de indexação”. É uma espécie de guerrilha diferente pela audiência, pelo público. E pode ser usado também como uma forma de “vencer” o vício do público em consultar os meios tradicionais de informação para obter notícias, hein Manoel? Muito legal seu comentário, obrigado por passar por aqui e deixar sua opinião! Seja sempre bem-vindo! =)

  7. Olá Madureira,

    Este tema é muito legal, inclusive tenho um artigo – SEO para Jornalistas – publicado na Webinsider.
    Não sou jornalista, mas não creio que seja um dilema de escolha.
    Trabalhei no portal Terra, e tive a oportunidade de ver resistências para coisas como BBB9 ou BBB 9?
    Gosto muito de criar planilhas com agrupamentos de palavras para analisar melhor os nichos de busca. Veja este tutorial:
    http://www.curso-seo.com.br/marketing-busca/links-patrocinados/selecao-palavras-chave

    Abraços,
    Marcio Okabe
    @marcioKonfide

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