Jornalismo colaborativo, lado a lado com conteúdo profissional

Desta vez, certamente não haverá azedume nem avaliações precipitadas de quem estava de fora. Nesta segunda-feira fatídica para quem sofreu com a enchente em São Paulo, entre diversas opções de conteúdo profissional disponíveis a seus editores, o portal UOL resolveu estampar em sua capa uma foto enviada por um leitor.

Foto de usuário estampada pelo UOL em 22/12/2008

Foto de usuário estampada pelo UOL em 22/12/2008

Depois do trauma do acidente da TAM, o portal volta a dar destaque editorial para conteúdo colaborativo em um contexto midiático de saturação de colaboração. Em um álbum de fotos que misturou conteúdo profissional e “amador”, o portal conseguiu somar a seu próprio conteúdo visões do caos que nenhum dos fotógrafos do Grupo Folha conseguiu capturar tão bem.

Eis o fenômeno da colaboração a serviço da informação jornalística. E o que torna, no meu ponto de vista, iniciativas pro-am mais factíveis no ambiente de mídia brasileiro. E por quê?

Ora, é simples acusar este ou aquele veículo de conduzir erroneamente um processo participativo. Mas é fato irrefutável que todo mundo —inclusive a panelosfera— converge para os grandes sites na hora que um desastre do porte de um acidente de avião ou enchente acontece. Acreditar que o Twitter informou primeiro sobre o terremoto de São Paulo —ou que um número tal de registros na Technorati indica que haja “informação” de fato sobre algo— é pura ingenuidade, quando não acreditar em falácias.

Isso porque o fetiche pela mediação no qual vivemos hoje faz muita gente confundir informação e repercussão. Colarinho é o que muito dono de boteco da Web quer vender hoje em dia. Abrem até consultoria para isso. Mas cerveja mesmo que é bom, até eles correm para a mídia tradicional para beber.

Mas voltando ao pro-am —acredito neste modelo porque, em primeiro lugar, é para a grande mídia que o público converge em um momento de comoção. Porém, esta mesma grande mídia, por sua condição paquidérmica, por sua posição ideológica ou pura incompetência —essa discussão fica para depois— simplesmente não consegue registrar fatos quando eles acontecem.

O público pode ajudar a descobrir peças do quebra-cabeças e a tornar o hard-news mais rico e profuso. Porém, ainda acredito que é necessário haver jornalistas para ligar fatos, cruzar fontes, trazer à visão do público um cenário mais amplo, que a visão de um jornalista cidadão, preso ao hiperlocal, limitado por buscas que talvez ele nem saiba iniciar e também por outras necessidades e afazeres imediatos, não pode oferecer ao público. Ele pode oferecer um fôlego, um suspiro pós-moderno, imediato. Mas não a sinfonia inteira, obra acabada da modernidade a que convencionou-se chamar imprensa.

Além de jornalismo de tecnologia, há um ano tenho trabalhado com sistemas de publicação. E visto alguns avanços em semântica, seja no Google, seja em estudos acadêmicos que correm por papers antes de virarem modelo de negócios na mão de algum empreendedor americano. O fato é que, apesar de ver muito colarinho, deixei de me temer que as máquinas dominem o mundo, e que saia da cabeça de algum programador genial essa capacidade de cruzar informações. Simpesmente porque o computador ainda é incapaz de contar histórias.

Por isso, se posso acrescentar um pitaco à tão discussão iniciada pelo professor Alec Duarte em seu blog sobre o futuro do jornalismo impresso, tendo sim a acreditar que ele não morrerá —talvez tenha, isso sim, que mudar de nome e plataforma. Se o papel se tornar digital, ainda assim precisaremos de jornalismo de fôlego, investigativo, capaz de aprofundar questões, e não simplesmente exibir acontecimentos. Neste sentido, e pensando na captação de material do público em grandes acontecimentos como as enchentes em Santa Catarina e São Paulo, o acidente da TAM (e tantos outros), tendo a acreditar que a colaboração é mais perigosa para o jornalismo online do que para o próprio jornalismo impresso… ;-)

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5 comentários sobre “Jornalismo colaborativo, lado a lado com conteúdo profissional

  1. Madu,
    você possui uma visão crítica interessante, com alguns pontos que concordo e muito, como a união de conteúdos entre o jornalista e o cidadão. Fórmula interessante para agregar valor e deixar a informação mais completa.
    A única coisa que saliento é a postura Twitter como fonte de informação.
    A moda “fiquei sabendo primeiro pelo Twitter” não é sinônimo de “furo jornalístico”. Por isso que não sou a favor da frase “o Twitter informou primeiro”. O correto, pra mim, é “compartilhei informações semelhantes com o próximo”.

    O caso em destaque, por exemplo, é o Tremor de terra em São Paulo. Não acredito em ingenuidade, mas sim em um diagrama de colaboração =).
    O assunto promoveu um breaking news participativo, já que ninguém sabia ao certo se a terra tremeu ou foi apenas em seu condomínio, em sua casa….E tudo isso ocorreu, sim, antes de um plantão da Globo. Pq a confirmação pra mim só veio mesmo com uma grande mídia, até pq eu não senti nada no momento.

    Abraço!

  2. Oi Madu! Obrigada pelo “azedume”! :-D

    Não acho que seja uma questão da colaboração ser mais perigosa pra esse ou aquele suporte. Colaboração não tem nada de perigoso. É só saber lidar com ela, como vocês tão começando a fazer agora! Não tem mistério… É só ter calma, paciência de checar… jornalismo colaborativo não se presta taaaanto assim pra breaking news. Anyway, esse exemplo que tu citou foi bem bacana. Vou guardar nos meus anais :-)

    Beijo e sucesso por aí!

    p.s.: valeu o almoço! adorei! quero mais Karina e tu!!

  3. Bom dia.
    Meu nome é Aurélio Martins Favarin e sou Relações Públicas pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).
    Gerencio o blog TCC Comunicação (www.tcccomunicacao.blogspot.com). O espaço é destinado à publicação de resumos de tccs de graduação e pós-graduação, dissertações e teses na área de comunicação. Em 2008 o espaço contou com a publicação do resumo de: 17 tccs de graduação, 4 tccs de pós-graduação, 4 dissertações e 1 tese.
    Mensalmente o espaço oferece um livro de comunicação para o trabalho eleito como mais interessante pelos usuários do espaço.
    Escreva o resumo do seu trabalho, com aproximadamente 1.500 caracteres (com espaço), para o e-mail aurelio.favarin@gmail.com.

    Atenciosamente,

    Aurélio Martins Favarin

  4. Negão, deixei um meme procê lá no blog. Passa por lá e repassa pras mais seis calangos…
    abs de urso

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