A morte (novamente) anunciada do jornal de papel, agora pelo WSJ

Março de 2011, e o blog “Real Time Economics“, do Wall Street Journal, volta a um tema que ronda há anos a indústria da mídia —o blog lista o jornal de papel como uma das dez indústrias que estão morrendo. A indústria do jornal é comparada à da telefonia fixa, das locadoras de filmes, das lojas de discos e das lojas de aluguel de trajes sociais.

Justo neste momento tenho voltado meus olhos ao jornalismo novamente, depois de um tempo pensando em bits, bytes, códigos de programação e usabilidade para ajudar a construir o sistema de publicação do portal onde trabalho. E qual não foi minha surpresa ao reencontrar os velhos maus hábitos do jornalismo à solta, e ainda com força.

Nos anos em que trabalhei com jornalismo de tecnologia, fosse como repórter ou editor, sempre fui perseguido pelo efeito “divulgação”. De fato, jornalismo de tecnologia —assim como o de veículos, de turismo, de serviços ou consumo em geral— é mais vulnerável a discursos corporativos. O chamado “release” que tenta se emplacar como notícia. E a suposta “fragilidade” do jornalista que trabalha com tais assuntos, por acabar se valendo mais desse tipo de artifício para obter informação do que efetivamente produzir conteúdo.

Sempre tentei lutar contra isso. E o artifício que criei era sempre pensar na necessidade de meu cliente, o tal “leitor”. Esse desconhecido para nós nas redações, que achamos conhecê-lo só porque sabemos em que tipo de matéria ele clica.

Ora, aí a gente passeia por sites de grandes veículos de informação e acaba encontrando notas em áreas “nobres” do noticiário, como política ou cidades, que meramente reproduzem anúncios oficiais. Pergunto: qual a diferença entre publicar um release de uma empresa de tecnologia e divulgar, com uma parca contextualização, o release de um órgão público?

Aí é que está: nenhuma.

Dia desses fui descoberto aqui no trabalho por um ex-aluno do Mackenzie. Dei aula de Técnicas de Reportagem a ele em 2007 —antes de “abandonar” o jornalismo e as aulas, mergulhar no mundo de software de publicação e busca, ter dois filhos, etc. Já tinha, no entanto, trabalhado com gestão de imagem corporativa, uma espécie de consultoria de assessorias de imprensa que ajudava a preservar a imagem de grandes corporações.

Em uma das aulas, usei com a turma de segundo ano de Jornalismo do Mackenzie uma técnica para tentar “ocultar” uma informação que seria prejudicial a uma empresa. Exercício de escrever matéria após uma coletiva. Técnicas simples de discurso. Cinquenta alunos inexperientes. Sucesso absoluto.

A morte (novamente) anunciada do jornal de papel pelo Wall Street Journal me fez pensar mais longe. Fez pensar que o jornalismo como um todo, e o jornalismo online particularmente, está cada vez mais rarefeito, frágil, insosso. A velocidade dos acontecimentos continua a atropelar o leitor sem ajudá-lo a compreender o mundo, a contextualização da informação é parca ou inexiste, o jornalista está cada vez mais sentado atrás do computador e cada vez menos vivendo aquilo que informa ou a vida de quem ele informa, para informar melhor.

Acredito que com a entrada das classes C e D na Internet esse fenômeno só tende a se agravar. Porque nas redações só enxergo filhos da classe média, como este que vos escreve. Uma das saídas para isso seria descer de nosso palanque e tentar conhecer melhor as necessidades desses públicos. Sem achar que ter uma gama “X” de publicações é capaz de resolver o problema. Só estamos vendendo o sonho da classe média às classes C e D. Será que é isso que elas querem? Será que a sociedade tem condições de fornecer essas condições a tantos milhões de pessoas?

Particularmente, quando leio a revista semanal de maior circulação em nosso país não me identifico com aquele tipo de pensamento. A vida pode (e é até bom que deva) ser mais simples do que tudo aquilo de consumo, de artificialidade e ostentação.

Mas volto ao jornalismo. Se somos então meros reprodutores de discurso, como não acreditar que um software não substituirá em menos de uma década?

Relembro um post que publiquei em novembro de 2007, questionando se o jornalismo não morreria se não voltasse às origens. Em mim, ao menos, o jornalismo anda na UTI. E em estado terminal.

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