Entrevista com Caíque Severo

CAÍQUE SEVERO

Jornalista, Diretor de Desenvolvimento Editorial do iG

Para o jornalista Caíque Severo, o jornalismo colaborativo é a cauda longa da informação na Internet. O grau de participação entre os usuários vai desde um fato que interessa unicamente a outra pessoa na rede —como o nascimento de um parente ou a própria foto em um espelho— às notícias mais amplas, em uma escala semelhante à proposta por Chris Anderson quando cunhou o termo. Quanto mais complexa a participação, menos atores. E daí uma possível justificativa para a grande popularidade das redes sociais em relação à prática do jornalismo colaborativo, e também a maior participação de usuários como fontes de informação do que como cidadãos-repórteres.

Severo também não vê o jornalismo colaborativo como ameaça ao jornalismo tradicional. Ele seria apenas mais um modo de participação do público, prática comum ao noticiário online, além uma espécie adicional de filtro de informação que não substitui o trabalho do jornalista: “O que determinado veículo selecionou para ir para a capa continua sendo um critério importantíssimo de priorização”.

O que é jornalismo colaborativo em seu ponto de vista?

Na Internet, usamos este termo para descrever iniciativas que utilizam a participação dos cidadãos na coleta de informações, envio de fotos, notícias etc. O grau de participação e moderação dos veículos ou sites organizadores desse conteúdo varia. Alguns publicam somente o que é checado pela equipe do veículo, outros publicam tudo que é enviado pelas pessoas.

As notícias que estampam a home page de seu portal seriam muito diferentes sem o jornalismo colaborativo? Por que?

Acho que a decisão se as notícias vão ou não para a home page do portal passa por outro critério. Não importa se foram enviadas pelos usuários ou não. Se é notícia e é relevante, pode ganhar destaque, inclusive na home page. De novo, o critério de moderação e destaque varia entre cada veículo.

Por que redes sociais como Orkut ou MSN são tão populares no Brasil, mas o jornalismo colaborativo nem tanto?

Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Existem vários níveis de participação do usuário. Redes sociais oferecem no mínimo o nível mais básico de participação, que é simplesmente estar na rede. Você vai lá e cria o seu “perfil”. Naturalmente vai existir muito mais gente que simplesmente criou um perfil em uma rede social do que aqueles que têm a capacidade e disposição de produzir qualquer conteúdo. É uma escadinha. Quanto mais complexa a participação, menos atores. Compare o fenômeno fotolog no Brasil de alguns anos atrás. Ele ocorreu quase simultaneamente ao surgimento dos blogs, mas tínhamos muito mais gente com um fotolog do que com um blog. É muito mais fácil criar um fotolog e publicar fotos do que ter um blog e atualizá-lo. Eu costumo brincar que para ter um blog você precisa ter o que dizer. No fotolog, não. Basta tirar uma foto sua no espelho. Também não sei dizer se o jornalismo colaborativo é menos bem sucedido no Brasil do que em outros países. Gostaria de ver os números percentuais.

Você considera o internauta que participa de seu serviço de jornalismo realmente um cidadão-repórter? Ou ele teria uma função, hoje, mais semelhante à de uma fonte de informação?

Eu acho que isso varia muito com a definição de jornalismo que cada um dá a sua iniciativa. Você pode dizer que apenas as notícias que realmente são relevantes a todas as pessoas serão consideradas relevantes. Ou você pode assumir que notícia é o que cada pessoa acha importante. Por exemplo, para um usuário notícia pode ser o nascimento de alguém de sua família. Imagine isso como a cauda longa ao extremo da produção de notícias. Isso não precisa ter nenhuma relação com o consumo ou audiência de cada notícia. O bonito da Internet é que você pode ter uma informação produzida por uma pessoa que só interessa a outra uma pessoa. O tratamento que cada veículo dá a sua iniciativa também ajuda a definir se a colaboração vai ser usada como fonte de informação ou notícia pronta. Nessa decisão deve pesar uma avaliação de quantos participantes o veículo deseja ter. É natural que existam muito menos cidadãos-reporteres do que cidadãos participando como fonte de informação.

O jornalismo colaborativo de seu veículo pode ser comparado ao exercido por sites como o OhMyNews (Coréia do Sul) ou o iReport (EUA)? Seu portal se inspirou em serviços como estes para criar seu modelo de jornalismo colaborativo?

Não estou autorizado a falar em nome do iG, portanto prefiro não comentar sobre o nosso produto.

O jornalismo colaborativo dá ou pode dar certo em grandes portais de conteúdo? Ou é um fenômeno que ficará relegado a sites independentes? Por quê?

Acho que não há mais como não utilizar ferramentas de colaboração na construção do produto jornalístico. Mesmo que o veículo não tenha uma funcionalidade específica, os usuários enviam material voluntariamente. O conceito de “dar certo” também é variável. Muitos podem ter como critério a quantidade de itens enviados pelos usuários e isso pode acabar modificando como o produto funciona, facilitando ao máximo a participação. Outras iniciativas podem focar na qualidade, velocidade e exclusividade da informação. Nesses casos, provavelmente o veículo vai querer reduzir a quantidade de participantes para poder focar naqueles que realmente têm algo para contribuir.

O jornalismo colaborativo é uma forma de baratear a produção de conteúdo jornalístico? Por quê?

Não tem nada a ver com custos. Se você quer fazer jornalismo de qualidade precisa investir recursos compatíveis no trabalho de checagem, apuração e moderação. Qualidade é resultado dos recursos investidos.

Não será mais difícil às pessoas, em um contexto de excesso de informação, lidar com mais e mais conteúdo em um contexto de construção coletiva de material? O jornalismo colaborativo não será, portanto, mais “difícil” que o jornalismo tradicional?

É por isso que a cada dia surgem novas formas de filtrar a informação. A mais recente delas é o filtro social. Através das redes sociais eu acabo chegando à informação que é mais relevante. É claro que esse é só um dos filtros que a pessoa vai usar. Dependendo do perfil da pessoa ela vai continuar querendo dar uma olhada nas páginas iniciais dos sites de informação ou mesmo na primeira página dos jornais impressos. O que determinado veículo selecionou para ir para a capa continua sendo um critério importantíssimo de priorização.

O jornalismo colaborativo pode substituir, hoje ou futuramente, o jornalismo tradicional? Por quê?

Jornalismo é jornalismo. Não existe uma disputa entre tipos de jornalismo. Ou uma coisa é notícia ou não é. E o critério do que é notícia tem vários níveis e cada leitor escolhe os filtros que deseja usar para chegar ao que ele considera notícia.

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