Entrevista com Erin Mizuta

ERIN MIZUTA

Jornalista, editora do VC Repórter (Terra)

A jornalista Erin Mizuta concedeu duas entrevistas à pesquisa, uma presencial, outra por e-mail. Nas conversas, revelou que o Terra, em 2009, possuía três jornalistas dedicados ao VC Repórter —dois redatores e uma editora, que se reportava diretamente à diretoria de conteúdo (e não à gerência de jornalismo, como as outras editorias do portal). Para ela, o jornalismo colaborativo encontra-se em uma fase intermediária na Internet brasileira em relação ao desenvolvido em outros países, e avançar exigirá uma mudança cultural mais ampla, que envolve uma maior conscientização social, política e até jurídica, até para que o colaborador saiba o que pode lhe acontecer se publicar uma informação falsa. “Para quê você quer uma nação inteira de jornalistas? Isso é utópico. É o fim do jornalismo. Haverá sim, mais colaboração de quem participa dos acontecimentos. Mas isso não será o fim, só uma mudança”.

O que é jornalismo colaborativo em seu ponto de vista?

O jornalismo colaborativo é constituído pelo interesse de pessoas sem formação profissional em comunicação em transmitir informações que elas acreditam ser relevantes para o público. Canais como o VC Repórter dão vazão a isso.

Acredito que a Internet impulsionou o jornalismo cidadão ou colaborativo, pois, no momento em que essas pessoas passaram a veicular notícias em blogs pessoais ou sites de relacionamento, a notícia deixou de ser monopólio de veículos de comunicação.

Qual é a área editorial (cidades, cultura, economia) com maior apelo para produção de conteúdo por parte dos internautas de seu serviço de jornalismo colaborativo? Por quê?

A maioria são notícias do cotidiano, fatos que afetam diretamente o leitor. São fatos fáceis de serem distinguidos como notícia: acidentes de trânsito, buracos e problemas em ruas ou estradas, alagamentos e árvores caídas são bem frequentes. Fatos relacionados a chuvas e demais fenômenos climáticos são sempre assunto. Manifestações também contam sempre com registros de colaboradores.

A editoria de Cidades é a mais utilizada, seguida pela de trânsito. No entanto, cada vez mais temos recebido um conteúdo de maior abrangência editorial. Temos muitos eventos culturais e esportivos, celebridades, pautas de comportamento e moda, novidades na Internet.

Há uma maior tendência no jornalismo colaborativo de seu portal a valorizar os acontecimentos da região onde vivem os autores das matérias? Qual a razão disso, em sua opinião?

Acho que aí está a origem e o sentido do jornalismo colaborativo. Não vejo como o jornalismo [colaborativo] pode não ser regionalista numa primeira fase. O internauta, na grande maioria das vezes, fala sobre o que acontece à sua volta, sobre o que lhe afeta diretamente e o seu entorno.

Ele pode falar da árvore que caiu na frente da casa dele, do buraco na rua do bairro, do problema de água na cidade. Em raros casos ele vai flagrar um acidente que acontece longe do seu trajeto cotidiano. Em uma segunda instância, que já conseguimos atingir aqui no VC Repórter, ele vai falar sobre um destino turístico que visitou, sobre o anúncio de uma banda, ou a morte de um esportista. Mas tudo ligado ao círculo de interesse dele.

As pessoas, mesmo que escrevam sobre o Dr. Hollywood, falam sobre o que é caro e a elas. E não só fisicamente.

Já houve casos em que autores enviam reproduções de matérias de outros veículos? Como esse tipo de caso é tratado pela redação?

Sim, muitas vezes por desconhecer o conceito de direito autoral, o leitor envia matérias de algum jornal da região, fotos de amigos do Orkut, fotos copiadas de outros sites. Não utilizamos material de divulgação ou assessoria de imprensa, assim como textos e fotos publicados em outros veículos, agências de notícias e conteúdo profissional. Publicamos apenas material produzido pelos próprios leitores no canal.  Esses casos são encaminhados para a editoria correspondente como sugestão de pauta desde que o leitor esteja de acordo.

Cada caso é analisado separadamente. Se a foto é produzida pelo leitor e o texto é copiado, apenas para envio de informações, publicamos uma nota feita por nós com a imagem. Sempre estendemos a apuração em pautas em que isso é possível. Mas a iniciativa poucas vezes parte do leitor.

E material de divulgação/press-releases? O jornalimo colaborativo é mais suscetível a esse tipo de conteúdo? Como a redação se previne?

Em parte a dúvida foi respondida na questão anterior. Não aceitamos material de divulgação/assessoria de imprensa, salvo para complementar informação enviada por leitores anteriormente. Claro que muitos assessores usam o canal como meio de contato com a redação, e é quando encaminhamos a mensagem para as outras editorias.

Os releases só representam uma forma de “erro” no jornalismo colaborativo. Nas outras editorias, convencionou-se usar as sugestões de pauta das assessorias de uma forma ou outra. Por isso não sei se o termo “mais suscetível” é correto.

Não precisamos de grandes estratégias de prevenção porque geralmente este tipo de material vem especificado claramente. Quando não, é fácil notar pelo tipo de texto, qualidade de foto, ou com uma busca na rede. Ou seja, a apuração que é feita com todas as notas acaba por esclarecer a origem da pauta. Desde que cheguei ao VC Repórter, apenas uma assessora negou que o material se tratava de um release. Mesmo assim, achamos o mesmo texto em outro veículo e não publicamos.

Os maiores riscos são representados pelas ações de marketing viral. Uma vez recebemos material de um publicitário e percebemos a intenção. Em outro momento, dois leitores nos mandaram material de outra ação como notícia —essa, sim, foi um erro.

Como aconteceu?

Foi uma sexta-feira, correria. Estávamos sob pressão e falhamos na apuração. Era o caso de um fusca cortado ao meio que estava sendo rifado. Dois leitores legítimos enviaram como verdade. Eles filmaram e acreditaram. Percebemos claramente quando tentam plantar informações. Mas foram leitores que nos enviaram material. Veja, não erramos porque somos um site colaborativo: erramos por falha de apuração. Está aí o caso clássico do “boimate” para provar que erros também acontecem no jornalismo tradicional. Não acho que o jornalismo colaborativo seja mais frágil, este controle precisa ser feito. É óbvio que vai haver erros. E por isso que há editores. Sempre digo à equipe que não há matéria de uma fonte. Como no caso em que o trem atrasou —como posso confiar na pessoa que liga para a redação e diz que o trem levou 4h para chegar? Ele pode estar querendo justificar um atraso no trabalho com uma notícia nossa.

Os internautas que participam do serviço de jornalismo colaborativo de seu portal apuram informações antes de as submeterem? Que métodos usam (entrevistas, pesquisa, registro fotográfico/taquigráfico)? Como a redação “confia” nos seus colaboradores?

Sim, mas não são todos. Eles colhem informações no local por observação, com os envolvidos, com fontes oficiais. Alguns deles até mesmo nos sugerem telefones das fontes com quem a matéria pode ser checada. No entanto, não usamos apenas essas fontes. Todo o material é checado antes de ser publicado, invariavelmente. A apuração parte das informações do leitor. Portanto, ele funciona realmente como um pauteiro/repórter. As entrevistas são utilizadas apenas quando conseguimos checar a declaração obtida pelo leitor.

Como a redação trabalha com o material recebido de internautas? Existe checagem das informações? É feita algum tipo de apuração adicional/ enriquecimento dos dados?

Sim. Como dito acima, todas as informações são checadas e novos dados são adicionados para compor a matéria. Na maioria dos casos, o texto é feito ou enriquecido pelos nossos redatores, pois raras vezes eles chegam de acordo com as normas editoriais do portal para publicação.

O mero flagrante de um acidente, uma chuva forte ou registro de um show pode ser considerado jornalismo colaborativo? Como a redação trabalha com esse tipo de material?

Sim, como você pode ver, todos os exemplos citados são publicados no site. O leitor ajuda na composição do noticiário do portal, podendo ser essa colaboração parcial, com apenas uma foto, ou integral, com uma notícia completa.

“Se o leitor achou que o material enviado é uma notícia, é o nosso papel entender o motivo e, de preferência, garantir espaço para aquele conteúdo”, diz o manual do portal.

E o registro pessoal sobre uma obra de arte, um carro ou situação vivida pelo internauta? Textos em primeira pessoa são considerados para o noticiário colaborativo? Por quê?

Depende do tipo de texto. Artigos ainda não possuem espaço no VC Repórter, mas há a possibilidade de que essa divisão venha a existir. O leitor ainda confunde um texto opinativo com notícia, principalmente em casos políticos. Relatos de uma viagem, por exemplo, são publicados e com grande proveito. Um grande exemplo de jornalismo colaborativo nesta linha é o guia de turismo Zagat (www.zagat.com).

Você considera o internauta que participa de seu serviço de jornalismo realmente um cidadão-repórter? Ou ele teria uma função, hoje, mais semelhante à de uma fonte de informação?

Acredito que ele se encontra em uma fase intermediária. Ele não é apenas uma fonte, porque ele não é só a referência sobre determinado assunto, é também o principal interessado em ver outros lados. Nem é apenas um repórter, porque a matéria não pode ser construída com base no seu ponto de vista. Um repórter contratado para um meio de comunicação conta total credibilidade da empresa em seu relato. No caso do jornalismo colaborativo, não sei se um dia isso será possível. Como disse, todas as notícias partem, de um jeito ou outro, de interesses pessoais.

Como uma vez me disse Edson Rossi, nosso diretor de conteúdo, o cidadão-repórter transforma a função do jornalista. E eu acredito e concordo com isso. Se eles são os pauteiros/repórteres, cabe a nós sermos editores.

Qual é a evolução desta fase intermediária?

Acredito que ela exige uma mudança não só no jornalismo colaborativo, mas na educação em geral, na consciência social, política e até jurídica das pessoas, até para que elas saibam o que pode acontecer se elas publicarem uma notícia falsa. Há um colaborador de Blumenal que passa até o número de telefone da fonte. Mas ele publica no blog e manda para o G1. Como eles não mexem no texto, eles publicam primeiro. Mas se a gente não dá primeiro, tem que dar melhor. É por isso que checamos com outras fontes, colocamos mais informação. Para que você quer uma nação inteira de jornalistas? É utópico. É o fim do jornalismo. Haverá sim, mais colaboração de quem participa dos acontecimentos. Mas isso não será o fim, só uma mudança.

Você acredita que a criação de perfis e a utilização de sistemas de pontos que criassem um ranking de colaboradores ajudaria os leitores do serviço de jornalismo colaborativo de seu portal a identificar que autores são melhores e mais confiáveis?

Já vi isso em outros sites, mas não sei como funciona o sistema de apuração e publicação deles. No nosso caso, não seria algo eficiente, pois, a partir do momento em que todas as matérias são apuradas e checadas pela redação, esse sistema mediria apenas a freqüência com que cada leitor colabora. Se houvesse maior ou menor credibilidade em cada matéria, ela deveria ser atribuída a nós, da redação.

O jornalismo colaborativo de seu portal tem a mesma credibilidade que o noticiário profissional? O que diferencia os dois, em seu ponto de vista?

Acredito que sim, e trabalhamos para isso. Tanto que as matérias do VC Repórter disputam espaço na capa com as matérias produzidas pela equipe regular de cada editoria. Os critérios são os mesmos para avaliar todas as matérias.

A diferença é que, algumas vezes, estamos em desvantagem em relação à qualidade de fotos, por exemplo. Em outros casos, temos a vantagem da exclusividade.

Por que redes sociais como Orkut ou MSN são tão populares no Brasil, mas o jornalismo colaborativo nem tanto? O jornalismo colaborativo está dando certo no Brasil? Por quê?

Em primeiro lugar, porque as redes sociais têm finalidade diferente do jornalismo colaborativo.  Em segundo, acredito que muito se deve ao fato de que os brasileiros ainda não estão familiarizados com o conceito do jornalismo colaborativo —e também de jornalismo, principalmente na Internet. Aos poucos, eles estão descobrindo que a foto postada no Orkut e que fez tanto sucesso porque mostra o dia-a-dia de quem sofreu com uma cheia, por exemplo, pode virar (e é) uma notícia. Ou que o problema que atinge o bairro, e que vira tema de debate em uma comunidade, pode ser cobrado das autoridades por uma matéria de denúncia.

Talvez também, pela popularização das redes sociais, em que tudo pode ser publicado sem mediação, elas ainda não saibam definir o que é notícia de uma informação pessoal. Por exemplo, a foto de um animal de estimação, ou uma foto de alguém abraçado a uma celebridade. Apesar disso, acredito que, pelo grande interesse dos brasileiros em novas tecnologias e interação, o jornalismo colaborativo deve crescer.

Mas o que ocorre ainda no jornalismo colaborativo, pelo menos no VC Repórter, é que ainda há um pouco de confusão com assistencialismo.  E, a partir daí, pessoas passam a escrever pedindo coisas, como para participar de um programa de TV, ou ajuda para algum problema pessoal. Às vezes parece a Porta da Esperança. Há uma leitora que escreve uma vez por semana pelo menos dizendo que quer participar do Big Brother. “Tenho um pai doente”. “Preciso receber do INSS”. “Comprei algo pela Internet e não recebi”. Confundem o site com o serviço de consumidor da Folha. “Minha filha não é bonita? Ela tinha que ser modelo”. A gente indicou agência…

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