Entrevista com Márion Strecker

MÁRION STRECKER

Jornalista, diretora de conteúdo do UOL

A colaboração sempre fez parte do trabalho jornalístico —e o público sempre teve espaço na imprensa, fosse como personagem de notícias ou comentarista ativo. Esta é a visão de Márion Strecker, diretora de conteúdo do UOL, que enxerga o trabalho de checagem de informações externas tão ou mais caro que a contratação de jornalistas para a apuração e a construção de reportagens. “(…) Sempre tive uma sensação ruim com esse desejo expresso por algumas forças do mercado em se fazer jornalismo ou de se ganhar dinheiro com jornalismo sem jornalistas”, diz Strecker, para quem o jornalismo colaborativo pode ser uma forma de baratear custos de produção da mídia. Mesmo assim, ela acredita que o movimento não ganhou força no Brasil pela falta consciência e de cobrança, motores de uma atividade essencialmente crítica como o jornalismo.

O que é jornalismo colaborativo em seu ponto de vista?

O público sempre participa e sempre participou em alguma medida do noticiário. Os jornais, esse veículo do século 19, sempre tiveram em certa medida a colaboração do leitor, expressa em seção de cartas, em críticas para ombudsman, repórteres sempre foram às ruas e tiveram contato direto com o público e aprenderam alguma coisa com isso. O público sempre enviou correspondências, antes por carta, agora por e-mail… fax, documentos, denúncias. Colaboração faz parte da natureza do trabalho jornalístico. Por isso esse termo jornalismo colaborativo sempre pareceu um pouco bizarro.

As notícias que estampam a home page de seu portal seriam muito diferentes sem o jornalismo colaborativo? Por que?

Entre ter o público como personagem e tê-lo como autor, há um amplo espectro de atividades, que podem e são exploradas. Por exemplo, você pode ter uma repórter do UOL, a Daniela Paixão, saindo com um cinegrafista e ouvindo pessoas na rua. Ou você pode ter depoimentos de pessoas, feitos em vídeo, elas mesmo se filmando, enviadas espontaneamente ou por estímulo do portal. Isso tudo o UOL utiliza cotidianamente. Estou dando alguns exemplos bem clássicos, só para explicar que, na minha visão, não existe uma linha divisória muito definida entre o jornalismo colaborativo e o não colaborativo, porque a gente vive em sociedade, e o nosso jornalismo trata de questões sociais, ele é feito para a sociedade e sobre a sociedade. O jornalismo não-colaborativo seria o quê? O jornalismo ditatorial, imperial, divino?

O jornalismo colaborativo dá ou pode dar certo em grandes portais de conteúdo? Ou é um fenômeno que ficará relegado a sites independentes? Por quê?

Essa questão me arrepia, criar um veículo em que jornalistas não fazem jornalismo, mas apenas recebem e rechecam material externo, enviado por pessoas não treinadas, sem capacitação para isso —o custo de um jornalista checar devidamente um texto externo pode ser tão alto ou maior do que o custo de produzir um texto original, uma reportagem original. Claro que depende do grau de ambição de qualidade desse veículo —quanto mais alta a ambição, mais alto o custo de produção. Então se o assunto é só o buraco de rua, tudo bem. Mas se o assunto é investigar um crime de colarinho branco, para citar dois extremos, a coisa se complica.

Por que redes sociais como Orkut ou MSN são tão populares no Brasil, mas o jornalismo colaborativo nem tanto?

Rede social não tem nada a ver como jornalismo; pode-se até falar de notícias ali, mas é vida social. Jornalismo é uma pequeníssima parte da vida social das pessoas, sempre foi. Isso não é uma novidade. Você não pode comprar a leitura de um jornal com conversas de bar.

Isso não significa que desvalorizo a participação do público na Internet. Há coisas que acho de uma eficácia impressionante. Nos EUA, por exemplo, não vivo sem o Yelp —colaboro sempre, escrevo. Os exemplos que mais admiro no momento estão mais ligados a serviços. Adoro as resenhas e as coações que as pessoas dão na App Store, da Apple. Comentários em notícias, muito eventualmente leio comentários relevantes —quanto mais complicadas as notícias, mais fácil encontrar comentários relevantes. A notícia tende a atrair menos gente, porque é um assunto mais árduo, e o comentário que esse tipo de texto normalmente atrai é mais refinado.

Redes sociais são um ambiente interessantíssimo para os jornalistas se relacionarem com o público e suas fontes. Para pauta e feedback.

O jornalismo colaborativo de seu veículo pode ser comparado ao exercido por sites como o OhMyNews (Coréia do Sul) ou o iReport (EUA)? Seu portal se inspirou em serviços como estes para criar seu modelo de jornalismo colaborativo?

Continuo irritada com a expressão de jornalismo colaborativo, como se só o OhMyNewws fosse colaborativo.

O jornalismo colaborativo é uma forma de baratear a produção de conteúdo jornalístico? Por quê?

Meu “desconfiômetro” sempre me mandou os seguintes alertas: verifique se isso não é uma maneira de baratear custos e nada mais, que vai ter como consequência possível uma piora da qualidade do produto oferecido; veja se esse não é um movimento arrivista; suspeite do risco de determinadas forças do mercado ou de determinados agentes sociais a quem interesse ferir de morte o bom jornalismo. Quem não conhece ou não valoriza o bom jornalismo acha quimérica a possibilidade de fazer jornalismo sem jornalistas. Afinal não é o que o Google tanta fazer com o Google News? Por que é que nós vamos contratar jornalistas? Será que o Google pensa nos objetivos ou por quem os veículos que ele exibe estão sendo guiados? Então eu sempre tive uma sensação ruim com esse desejo expresso por algumas forças do mercado em se fazer jornalismo ou de se ganhar dinheiro com jornalismo sem jornalistas.

Mas o jornalismo colaborativo não democratiza a atividade jornalística ao trazer ao público vozes que não fazem parte da mídia?

Trabalhei por 12 anos na Folha, e a Folha sempre recebeu a colaboração de não-jornalistas. É um jornal inclusive que contrata especialistas como jornalistas, e transformou especialistas em jornalistas, ao não exigir a obrigatoriedade do diploma para que escrevam num jornal. Portanto incluir especialistas no fazer jornalístico é algo elementar, que eu pessoalmente aprendi nos meus anos de escola Folha, e de alguma forma prosseguimos no UOL quando convidamos especialistas para o UOL, seja em entrevistas ou abrigando aqui sites desses especialistas.

O problema então é a credibilidade? O conteúdo colaborativo não pode ser confiável?

Sim, claro que pode ser confiável. Entre os elementos essenciais está a identificação do autor, isso é básico. Todos os sistemas que identificam a sério a autoria, como a Apple Store faz, por exemplo, porque você precisa ser cliente, ter seu cartão de crédito no sistema, além de seu endereço residencial, porque dá garantia dos produtos que você compra, há um histórico, enfim, quando você sai do anonimato, normalmente o nível da conversa sobe bastante. O anonimato é mortal, infelizmente. No mundo ideal o anonimato deveria ser permitido, mas ele não existe. Outra questão é a durabilidade da relação com a pessoa com aquele meio, com aquele site. Quanto mais tempo, mais rico é o comportamento da pessoa naquele ambiente, e mais confiável é o que ela escreve.

O jornalismo colaborativo pode substituir, hoje ou futuramente, o jornalismo tradicional? Por quê?

O problema no Brasil é a falta de consciência de cidadania. Acho que essa é a razão de o jornalismo colaborativo não dar certo por aqui. O cidadão raras vezes se sente dono da sua cidade, tem a consciência do quanto imposto ele paga, e do quanto ele pode cobrar dos nossos governantes. Ninguém lembra em quem votou para deputado, para prefeito na última eleição. A atividade política é baixa, associações de bairros são poucas. O engajamento social é alto, mas o político é muito baixo. Se o voto não fosse obrigatório no Brasil, a quantidade de pessoas que votam cairia drasticamente. As pessoas não leem os programas, não vão às convenções, pedem santinho para colar voto no dia da eleição porque o voto é obrigatório. Então falta consciência dos próprios direitos, falta cobrança, com isso falta motivo para exercer uma atividade jornalística que deve ser essencialmente crítica. Porque se não é crítica, não é jornalismo, é propaganda.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s