Entrevista com Rodrigo Flores

RODRIGO FLORES

Jornalista, então gerente geral de notícias do UOL

A participação do internauta na construção do noticiário dos grandes portais está muito mais ligada à etapa da pauta que à apuração ou à edição do material jornalístico. Na visão do jornalista Rodrigo Flores, do UOL, ao enviar material para a redação o público complementa o trabalho do jornalista, que então deve prezar pelos processos que conferem à informação características que a tornam notícia. “Embora o UOL não tenha canais abertos específicos para pautas, as pessoas usam todos os canais possíveis para nos pautar. E já fizemos inúmeras matérias com base nesse tipo de contato do público”, diz. Flores estava no UOL quando houve a publicação, na capa do portal, de uma foto falsa sobre o acidente com o avião da TAM em Congonhas (SP) em julho de 2007. Segundo ele, é muito difícil para um grande portal adotar a colaboração com os filtros necessários para evitar fraudes. “O risco da mentira está presente a todo momento. A partir do momento em que você registra uma entrevista de alguém, você corre esse risco. (…) O desafio do jornalismo é tentar chegar perto do risco zero.”

O que é jornalismo colaborativo em seu ponto de vista?

Existe uma cadeia de produção da notícia, que começa na pauta, na reportagem, na redação —se é que estamos falando de um texto, porque se for um vídeo ou foto não há redação— e edição, até a publicação. Pensando rapidamente, o jornalismo colaborativo é aquele em que a reportagem/redação utiliza, em vez de profissionais da área, jornalistas de uma redação, o próprio público. Caberia aí então à redação, para que se enquadre no campo jornalístico, a possibilidade de pautar ou não o trabalho do público, além do trabalho de edição. Porque pode existir um serviço de jornalismo colaborativo sem edição, mas não tenho certeza do modelo. A mera informação pode ser colaborativa, com certeza, mas não necessariamente ela será jornalismo.

As notícias que estampam a home page de seu portal seriam muito diferentes sem o jornalismo colaborativo? Por que?

No mínimo, o conteúdo do público complementa o nosso trabalho. Em alguns casos, ele é o nosso trabalho, é fundamental. Porque às vezes é o único recurso. Um exemplo foi o desabamento da ponte em Agudos (RS). Não temos repórter lá. A única forma de conseguir rapidamente registros do local seria acionar o público. Outro exemplo? São Luiz do Paraitinga. A cidade foi devastada. Fizemos um “antes-e-depois” [álbum com fotos dos locais antes e depois da enchente que ocorreu em 2009], pedimos ajuda aos internautas. As pessoas publicam fotos no UOL Mais, fazemos um filtro do que chega, e as imagens mais legais publicamos no template de notícias, identificadas com uma marca d’água. Muitas vezes a gente mistura conteúdo do público e conteúdo do UOL.

E material de divulgação/press-releases? O jornalimo colaborativo é mais suscetível a esse tipo de conteúdo? Como a redação se previne?

Acho que as assessorias estão muito mais preparadas para convencer os jornalistas a publicarem conteúdo do que a encontrar brechas no jornalismo colaborativo. Essa questão talvez seja menos importante, porque o press release hoje é um grande problema para o jornalismo —não existe neste caso o jornalismo, mas só a divulgação.

Em relação à fraude, estamos mais maduros sim, e mais preparados, mas não imunes. Poderia sim voltar a acontecer. Se você se dispõe a adotar este recurso de colaboração em um portal do tamanho do UOL, é muito difícil estabelecer os filtros necessários para evitar uma fraude. O risco da mentira está presente a todo momento. A partir do momento em que você registra uma entrevista de alguém, você corre esse risco. “Eu vi o avião cair”, mas não viu. O desafio do jornalismo é tentar chegar perto do risco zero.

Como a redação trabalha com o material recebido de internautas? Existe checagem das informações? É feita algum tipo de apuração adicional/ enriquecimento dos dados?

Se necessário [há  apuração adicional]. Mas há casos em que nosso trabalho é muito facilitado. Por exemplo, em São Luiz do Paraitinga: a cidade estava toda devastada; como o cidadão forja uma devastamento? Tivemos um caso de foto indevida, circulada na ocasião do apagão [que atingiu diversos Estados do Sudeste e Sul do país, também em 2009]. Era uma foto escurecida, mas que não foi tirada no dia do apagão. Da mesma forma que contamos com a ajuda do público para enviar o conteúdo, contamos também com ajuda para moderar o conteúdo —via “Comunicar erros”, um internauta nos alertou. Com esse indício, resolvemos tirar do ar. Tudo indicava que todas as fotos eram do apagão, pela abrangência da foto, mas o que houve foi uma depuração, uma correção com base na ajuda do público. Não há pós-edição neste caso, da mesma forma que se eu, jornalista, errei em uma legenda em um álbum criado pela redação, eu vou lá e corrijo.

O mero flagrante de um acidente, uma chuva forte ou registro de um show pode ser considerado jornalismo colaborativo? Como a redação trabalha com esse tipo de material?

Tendo a achar que não, porque acredito que o jornalismo envolve pauta, reportagem e edição. O flagrante é uma parte do jornalismo, é fundamental, ajuda muito, mas não sei se ele é jornalismo por não compreender todo o processo que define o jornalismo —isso justificaria a presença de uma moderação. Se você criar um site do seu bairro, até pode ser que você exista sem moderação. No nível de um grande portal como o UOL, isso seria impossível sem moderação.

O jornalismo colaborativo está muito ligado ao processo de pauta. Embora o UOL não tenha canais abertos específicos para pautas, as pessoas usam todos os canais possíveis para nos pautar. E já fizemos inúmeras matérias com base nesse tipo de contato do público. Sem a pauta, a sugestão do público, o jornalismo fica muito mais difícil. A reportagem é a execução. A edição ainda fica por conta de nós jornalistas.

Você considera o internauta que participa de seu serviço de jornalismo realmente um cidadão-repórter? Ou ele teria uma função, hoje, mais semelhante à de uma fonte de informação?

De novo caímos numa questão semântica: se ele é um cidadão-repórter, ou é um cidadão-cidadão, mandando um flagrante para tornar público o que ele viu. A gente também não pode transferir para o público essa responsabilidade completa da reportagem. Ele contribui para a reportagem, ele não é o repórter. Se você quiser chamá-lo de repórter eu também não me ofendo, porque volta e meia existe essa discussão.

Acho que o jornalismo muito dificilmente é feito sem a participação do público, mesmo passivamente. O que muda é que o cidadão passa a ser mais ativo diante deste processo. Também me sinto um pouco incomodado de não considerar o cidadão que contribui em casos como o que fizemos [durante as enchentes] em Santa Catarina, em que as pessoas mandaram fotos da tragédia e seis meses depois pedimos para elas retornarem ao local das fotos e mandarem as fotos dos lugares. Poxa, o internauta fez o trabalho todo, ele fez a reportagem para nós. Muito dessa discussão carrega o preconceito de que fotojornalismo não é jornalismo. Mas isso é bobagem.

Mas posso chamá-lo de fonte? Difícil. Em alguns casos sim, mas em outros ele é co-autor. Isso depende do grau de participação. Quando ele contribui com um depoimento, ele é fonte, ele conta o que aconteceu. Mas quando ele vai até um local pautado por nós e produz uma foto, ele é co-autor. No caso de Santa Catarina, a pauta foi nossa, ele fez a reportagem e nós editamos —colocamos numa casca, pusemos uma legenda e publicamos.

O jornalismo colaborativo de seu portal tem a mesma credibilidade que o noticiário profissional? O que diferencia os dois, em seu ponto de vista? 

Varia muito. Depende da maneira como decidimos apresentar, que não é homogênea; depende do destaque, porque publicar na home de UOL Notícias é uma coisa, na home do UOL é outra. Então o internauta pode publicar em nossa plataforma de vídeos, que é aberta, e a partir deste momento isso está no UOL. Mas se usamos este conteúdo dentro de nossa matéria, é outra coisa. Podemos pegar uma foto do internauta e colocá-la na home page. O internauta do UOL espera credibilidade do UOL. Por isso depende do quanto de destaque e da forma de apresentação —dentro de um álbum de Notícias ou na plataforma aberta para os usuários, o UOL Mais.

Por que redes sociais como Orkut ou MSN são tão populares no Brasil, mas o jornalismo colaborativo nem tanto? O jornalismo colaborativo está dando certo no Brasil? Por quê?

Temos usado o jornalismo colaborativo no UOL, o Jornal Nacional todo dia tem exibido alguma coisa do público. Então depende do modelo que você considera para dizer que está dando certo ou não. No meu entendimento o fenômeno é crescente, e temos que usar cada vez mais. Mas não creio que vamos usar [na grande imprensa] modelos muito puros, que acreditam exclusivamente na auto-regulação. Mas o que vejo é que as redes sociais têm uma finalidade completamente diferente, não sei se cabe comparação. O Orkut, o MSN são maneiras de interação social. O jornalismo, pelo menos como está na cabeça das pessoas, é bem pouco interativo. É uma forma de comunicação social. As redes são muito mais interessantes para o público porque promovem interação social, para conversar, conhecer pessoas. A diferença está no princípio, isso muda tudo. As coisas nascem tendo como base a comunicação, mas cada uma para um lado.

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