Entrevista com Ronaldo Lemos

RONALDO LEMOS

Doutor em Direito Civil, fundador do site colaborativo Overmundo

Apesar de o jornalismo colaborativo no Brasil ser muito mais difuso e desagregado que em países como os EUA, o fenômeno já mostrou ser um importante canal de informação em casos como o do terremoto em São Paulo, em 2009 —e demostra a rica combinação de mídias e mensagens que a Internet oferece. Esta é a visão do doutor em Direito Civil e ativista da Internet Ronaldo Lemos, criador do site colaborativo Overmundo, um dos primeiros a trazer ao país, especificamente para a área cultural, ferramentas de produção colaborativa de conteúdo jornalístico. Lemos acredita que a colaboração não substituirá o jornalismo tradicional, mas o transformará —para justificar a convivência, ele cita processos como o do jornalismo investigativo, por exemplo, extremamente caro e visto como “bem público”.

O que é jornalismo colaborativo em seu ponto de vista?

Jornalismo colaborativo é uma consequência da natureza de mão dupla da Internet, em que qualquer pessoa pode não só receber informação, mas também disseminá-la. Não existe uma atividade única que possa ser definida como jornalismo colaborativo, há um conjunto de atividades e mídias em que ele acontece, das redes sociais, passando pelos blogs e pelo Twitter.

Por que redes sociais como Orkut ou MSN são tão populares no Brasil, mas o jornalismo colaborativo nem tanto?

Essa é uma questão interessante. Nos EUA houve um amadurecimento muito rápido da blogosfera, que passou a se organizar e competir com os veículos de mídia tradicional, disputando inclusive verba publicitária. Isso não aconteceu do mesmo jeito no Brasil. Mas não quer dizer que não existe jornalismo colaborativo por aqui. O que aconteceu nos EUA é que a blogosfera passou de certo modo a espelhar o modelo jornalístico da mídia tradicional. Isso fez com que ficasse mais fácil identificar a atividade como “jornalismo”. No Brasil, o jornalismo colaborativo é muito mais difuso e desagregado. Mas ele também acontece, como mostrou o papel do Twitter no apagão do ano passado (2009).

Há uma maior tendência no jornalismo colaborativo a valorizar os acontecimentos da região onde vivem os autores das matérias? Qual a razão disso, em sua opinião?

No Brasil, a razão é o caráter eventual da prática do jornalismo colaborativo. Ele muitas vezes depende da oportunidade, do fato de alguém conectado à rede presenciar um determinado fato na sua comunidade local. Isso se deve também à falta de recursos, já que no Brasil ainda é raro ver um site colaborativo com correspondentes espalhados pelo país (com notórias exceções, como o caso do Overmundo, site que participei da criação).

Você considera o internauta que participa de seu serviço de jornalismo no Overmundo realmente um cidadão-repórter? Ou ele teria uma função, hoje, mais semelhante à de uma fonte de informação? Por quê?

Há as duas coisas. Há relatos pessoais, totalmente individualizados, verdadeiros tesmunhos no Overmundo. E há jornalistas mesmo, graduados ou graduandos, que usam o site para fazer jornalismo propriamente dito. O que acho mais interessante é que isso é produto das diferentes motivações que levam as pessoas a participarem do site. Alguns querem dar visibilidade a uma atividade local, outros querem mesmo criar um relato objetivo, outros querem polemizar e assim por diante. No fundo, o resultado é uma combinação muito rica, que mostra que há muitas mídias e muitas mensagens diferentes dentro da Internet.

O Overmundo trabalha com moderação de conteúdo ou com jornalistas profissionais que editam o material recebido?

Não, o Overmundo tem uma moderação geral que cuida da pertinência temática dos conteúdos e faz valer os termos de uso do site. Mas não há edição dos materiais, essa edição acontece colaborativamente e de forma espontânea, através da interação de quem publica artigos com outros usuários do site. É comum ver contribuições aos textos ou mesmo sugestões de alteração por conta de erros de grafia etc.

O jornalismo colaborativo do Overmundo pode ser comparado ao exercido por sites como o OhMyNews (Coréia do Sul) ou o iReport (EUA)? Seu portal se inspirou em serviços como estes para criar seu modelo de jornalismo colaborativo?

O Overmundo foi criado muito antes do iReport e pouco depois do OhMyNews. Quando fizemos os site, tivemos de inventar muita coisa original e acho que o site contribuiu para avançar os modelos de jornalismo. Não por acaso, gente como o Ethan Zuckerman, do Berkman Center de Harvard e fundador do projeto Global Voices, fez comentários muito positivos e entusiasmados sobre o site, como nesse texto aqui: http://www.worldchanging.com/archives/005382.html. Além disso, fizemos um texto na época da criação do site, explicitando todas as influências que levaram a ele, disponível aqui http://www.overmundo.com.br/estaticas/creditos.php. De lá para cá muita coisa mudou, mas é interessante ver as como as ideias se formaram.

O jornalismo colaborativo dá ou pode dar certo em grandes portais de conteúdo? Ou é um fenômeno que ficará relegado a sites independentes, como o Overmundo? Por quê? 

Acho que o futuro dos grandes portais de conteúdo é se integrar cada vez mais ao jornalismo colaborativo. Existe, principalmente no Brasil, uma lacuna muito grande em agregar a produção de jornalismo colaborativo espalhada pela rede. E acho que os grandes portais podem muito bem contribuir para desempenhar essa função.

O jornalismo colaborativo seria então uma forma de baratear a produção de conteúdo jornalístico para os portais? Por quê?

Em alguns casos específicos sim. Uma das lições que aprendemos com o Overmundo é que a rede e a colaboração faz muito por você, mas não faz tudo. Será sempre necessário ter uma equipe de moderação, edição ou interação, por menor que ela seja. Aliás, o sucesso da maioria dos projetos colaborativos depende justamente disso.

Não será mais difícil às pessoas, em um contexto de excesso de informação, lidar com mais e mais conteúdo em um contexto de construção coletiva de material? O jornalismo colaborativo não será, portanto, mais “difícil” que o jornalismo tradicional?

Sem dúvidas, o que mais falta são melhores filtros e melhores forma de agregar o conteúdo. Mas uma vez que isso seja feito, sua utilidade cresce enormemente. A questão é que a mídia tradicional também sofre do mesmo problema do excesso de informação e também dependerá cada vez mais de filtros e agregadores.

O jornalismo colaborativo pode substituir, hoje ou futuramente, o jornalismo tradicional? Por quê?

Não acho que haverá substituição, mas sim transformação. Inevitavelmente o jornalismo colaborativo vai transformar o jornalismo tradicional. Mas cada vez mais há a percepção de que a ideia de jornalismo tradicional é um bem público, por questões que envolvem reputação e recursos. O jornalismo investigativo, por exemplo, é caríssimo de ser feito e não há como negar que ele tenha uma função importantíssima. Acho que o futuro se definirá no processo de equilíbrio, em que o jornalismo colaborativo amplia as fronteiras da ideia de jornalismo, mas há uma percepção de que ter partes centralizadas da prática de jornalismo também é importante.

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