Motivações para a colaboração e as raízes do Brasil

O engajamento com a produção da informação sobre a própria realidade, que leva a um aprofundamento de visão sobre si mesmo e sobre a sociedade em que está inserido, deve fundar qualquer iniciativa que deseje proclamar-se jornalismo colaborativo; e não a simples abertura de sistemas de publicação ao grande público (liberdade de publicação) ou a possibilidade de fazer parte do cenário midiático, seja comentando-o, seja corrigindo-o em plataformas da própria mídia de massa, ou em plataformas independentes.

Bowman e Willis (2003) elencam alguns dos que consideram os principais motivos que levam uma pessoa a aderir a uma rede social e, uma vez dentro dela, interagir com outros usuários. O primeiro deles é ganhar status ou construir uma reputação em determinada comunidade. “O reconhecimento social é uma das maiores motivações, intoxicando os participantes com gratificação e aprovação instantâneas.” (2003, p. 38) Este reconhecimento também pode se traduzir em remuneração —outra motivação à colaboração, não abordada diretamente pelos autores, já que pequenos empresários, consultores ou escritores podem construir reputação positiva e traduzi-la em oportunidades de negócios no mundo real. O próximo fator de motivação citado pelos autores é a criação de conexões com pessoas que tenham interesses similares, tanto no mundo real como no virtual:

“As pessoas querem nutrir suas obsessões e dividi-las com pessoas que pensam como elas. Isso é o que motiva, em grande parte, muitas das conexões sociais na Internet. Seja uma página de fãs do pianista e vocalista de jazz dos anos 50 e 60 Buddy Greco ou um banco de dados de aerofólios usados no projeto de um avião, as pessoas estão usando comunidades online para compartilhar paixões, credos, hobbies e estilos de vida. Stuart Golgoff, do Departamento de Aprendizado Distribuído da Universidade do Arizona, diz que ‘enquanto as salas de bate-papo, os newsgroups, os fóruns e os quadros de mensagens exercem um papel na comunicação mediada pelo computador, a Web assumiu um lugar proeminente para forjar relações entre pessoas com interesses comuns’.” (BOWMAN; WILLIS, 2003, p. 39).

Outra motivação à colaboração destacada pelos autores é a necessidade das pessoas em melhor compreenderem o mundo e darem sentido às informações. Isso porque, para Kovach e Rosenstiel¹ (2004 apud BOWMAN; WILLIS, 2003, p.41), “o tipo de jornalismo que tem foco na elite especialista é, em parte, responsável pela desilusão do público. Esse tipo de noticiário não reflete o mundo como as pessoas o vivem e experimentam”, dizem os autores —o que faz eco e confirma nossa percepção ao paralelizar a imprensa tradicional à pedagogia bancária descrita por Freire (2003).

“Expostas a um enorme fluxo de informações de uma grande quantidade de fontes de mídia, as pessoas têm recorrido mais a comunidades online para aprender e dar sentido às coisas. (…) Veja o crescente número de especialistas no noticiário tentando explicar flutuações de mercado, manobras políticas ou avanços médicos. (…) Weblogs, fóruns, usenets e outras formas de sociabilidade online se tornaram mananciais de sentido em tempo real sobre qualquer assunto. Eles também funcionam como arquivos de perspectivas.” (BOWMAN; WILLIS, 2003, p.41)

Além da informação, a diversão também é um fator de motivação para a colaboração segundo os autores. E por fim, o processo de criação também é um estímulo: “Aqueles que participam online normalmente criam conteúdo para informar e entreter os outros. Mas criar também constrói a auto-estima e, na visão de Maslow, é um ato de realização pessoal” (BOWMAN; WILLIS, 2003, p. 42). A autora norte-americana Amy Jo Kim (2000) também recorre ao psicólogo Abraham Maslow para compreender motivações na rede. Maslow acreditava que as pessoas são motivadas a fazer algo pela compulsão em satisfazer desejos, desde os básicos, ligados à sobrevivência, até os mais complexos ou abstratos, ligados à satisfação pessoal. Ele também acreditava que as necessidades complexas não poderiam ser satisfeitas enquanto as mais básicas não o fossem. Bowman e Willis (2003, p. 39) usam a pirâmide de Maslow para comparar os objetivos e necessidades de participantes de comunidades online:

TABELA 1

A Hierarquia de Necessidades de Maslow e as Comunidades Online

Necessidade

Offline (Maslow)

Online (Comunidades)

Fisiologia

Comida, roupa, abrigo, saúde

Acesso ao sistema, habilidade de obter e manter uma identidade enquanto participa de uma comunidade virtual

Segurança

Proteção de crimes e guerras, o senso de viver em uma sociedade justa

Proteção contra hackers e ataques pessoais, capacidade de manter diversos níveis de privacidade

Amor/Relacionamento

Habilidade de dar e receber amor, sentimento de pertencer a um grupo

Pertencer à comunidade como um todo, e a subgrupos dentro da comunidade

Estima

Respeito próprio, habilidade de ganhar o respeito dos outros e contribuir para a sociedade

Capacidade de contribuir à comunidade e ser reconhecido por estas contribuições

Realização Pessoal

Capacidade de auto-desenvolvimento e conquista de seu potencial

Capacidade de assumir responsabilidade um papel dentro da comunidade capaz de desenvolver habilidades e criar novas oportunidades

Fonte: BOWMAN; WILLIS, 2003, p. 39

Shirky (2008, p. 132) também aponta razões pelas quais ele mesmo, certa vez, decidiu reescrever o trecho de um artigo na Wikipedia (www.wikipedia.org) sobre fractais, assunto que o autor revela não conhecer em profundidade:

“(…) sei de pelo menos três razões que me levaram a reescrever aquela descrição. A primeira foi a chance de exercitar algumas capacidades mentais adormecidas —estudei fractais em uma disciplina de física na faculdade na década de 1980 e fiquei feliz em lembrar o suficiente sobre a bola de neve de Koch para ser capaz de dizer algo útil sobre ela, apesar de modesto. A segunda razão foi vaidade —o prazer de mudar alguma coisa no mundo, só para ver meu nome nela. (…) A terceira fio o desejo de fazer algo de bom.”

Observa-se portanto que as motivações para a colaboração online ainda merecem estudo mais aprofundado e sistemático —e, no caso brasileiro, mereceriam em nosso ponto de vista uma associação mais profunda a análises antropológicas e sociológicas do Brasil e do brasileiro em si, além de características específicas de sua relação com a Internet, para evitar a mera “importação” de soluções, como já explicitamos.

Um dos caminhos para mapear os desafios do cenário brasileiro à adoção do jornalismo colaborativo seria, a nosso ver, aprofundar estudos de características socioculturais que diferenciam o povo brasileiro das populações de onde importamos as principais soluções tecnológicas de nosso tempo. À ética protestante e o espírito do capitalismo, opõem-se as raízes do Brasil —e nosso jogo de palavras aqui tem intenção. Em seu “Raízes do Brasil”, Sérgio Buarque de Holanda traça um perfil social do brasileiro a partir de nossa origem ibérica, que, segundo o autor, predomina sobre todas as outras em nosso arcabouço cultural. E isso teve consequências que nos diferenciam dos norte-americanos que usam o Digg ou dos sul-coreanos que fazem do OhMyNews o principal site de jornalismo colaborativo do mundo. A primeira delas é que ao tentar implantar a cultura ibérica em um território extenso, de condições naturais diversas das encontradas na Europa, e trazendo de lá nossas formas de convívio, instituições e ideias, acabamos por nos tornar “desterrados em nossa própria terra” (HOLANDA, 2004, p. 31). É como se a alienação detectada por Freire (2005) ganhasse ainda mais peso —e tivesse seu fecho por fim cerrado com a dinâmica de dominação social detectada por Castells (2006):

“A forma fundamental de dominação de nossa sociedade baseia-se na capacidade organizacional da elite dominante que segue de mãos dadas com sua capacidade de desorganizar os grupos da sociedade que, embora constituam maioria numérica, vêem (se é que vêem) seus interesses parcialmente representados apenas dentro da estrutura do atendimento dos interesses dominantes. A articulação das elites e a segmentação e desorganização da massa parecem ser os mecanismos gêmeos de dominação social em nossas sociedades. (…) as elites são cosmopolitas, as pessoas são locais. (…) Portanto, quanto mais uma organização social baseia-se em fluxos aistóricos, substituindo a lógica de qualquer lugar específico, mais a lógica do poder global escapa ao controle sociopolítico das sociedades locais/nacionais historicamente específicas.” (CASTELLS, 2006, p. 504)

A esta sensação soma-se um certo culto à personalidade, ao individualismo, que fez com que, segundo Holanda, os brasileiros herdássemos de nossos ancestrais portugueses e espanhóis certa dificuldade em fazerem surgir organizações sociais espontâneas e duradouras entre nós:

“Precisamente a comparação entre elas [as culturas ibéricas] e as da Europa de além-Pirineus faz ressaltar uma característica bem peculiar à gente da península Ibérica, uma característica que ela está longe de partilhar, pelo menos na mesma intensidade, com qualquer de seus vizinhos do continente. É que nenhum desses vizinhos soube desenvolver a tal extremo essa cultura da personalidade, que parece constituir o traço mais decisivo na evolução da gente hispânica, desde tempos imemoriais. (…) Para eles, o índice do valor de um homem infere-se, antes de tudo, da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. (…) É dela que resulta largamente a singular tibieza das formas de organização, de todas as associações que impliquem solidariedade e ordenação entre esses povos. Em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida.” (HOLANDA, 2004, p. 32)

Outro desafio a ser vencido também diz respeito ao contraste entre a cultura herdada dos povos ibéricos e a cultura protestante —seria nossa falta de apreço ao trabalho ou sua ligação ao mérito, à salvação. Segundo o autor, a atitude normal do povo ibérico —e que, portanto, influencia até hoje nossa cultura— é precisamente a inversa, em que “o ‘ser’, a ‘gravidade’, o ‘termo honrado’, o ‘proceder sisudo’, esses atributos que ornam e engrandecem (…) representam virtudes essencialmente inativas, pelas quais o indivíduo se reflete sobre si mesmo e renuncia a modificar a face do mundo”:

“É compreensível, assim, que jamais se tenha naturalizado entre gente hispânica a moderna religião do trabalho e o apreço à atividade utilitária. Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, até mais nobilitante, a um bom português, ou a um espanhol, do que a luta insana pelo pão de cada dia. O que ambos admiram como ideal é uma vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço, de qualquer preocupação. E assim, enquanto povos protestantes preconizam e exaltam o esforço manual, as nações ibéricas colocam-se ainda largamente no ponto de vista da Antiguidade clássica. O que entre elas predomina é a concepção antiga de que o ócio importa mais que o negócio e de que a atividade produtora é, em si, menos valiosa que a contemplação e o amor.”  (HOLANDA, 2004, p. 38)

Coloca-se no destrinchar destas questões culturais, ao lado do desenvolvimento de estudos sobre o papel educativo do jornalismo colaborativo sob a óptica de Paulo Freire e de ferramentas que possam auxiliar o jornalista em seu novo papel de autor digital, o maior desafio das iniciativas que pretendam levar o jornalismo colaborativo a todo seu potencial no Brasil. Para que a visão dos primeiros autores que se debruçaram sobre ele possa florescer como a ampliação da democracia, do acesso à informação e da realização do jornalismo como ferramenta de transformação e justiça social.

Contudo, apesar das evidências de nosso estudo, e diante dos aspectos delimitadores que já apontamos na estruturação de nossa metodologia, é fundamental retomarmos o caráter não conclusivo e não generalizador da pesquisa, deixando espaço para a discussão do conceito de jornalismo colaborativo e sua adequação às características das operações de mídia informativa na web brasileira.

Há que se ressaltar também que existe na web brasileira uma sucessão de iniciativas independentes —a exemplo do Centro de Mídia Independente, braço do site Indymedia no Brasil, do Wikinews de e outros casos nacionais, como o próprio Overmundo ou o BrasilWiki, já citados em capítulos anteriores— destinadas exclusivamente ao engajamento do cidadão como participante da cena social que, por suas características e recortes editoriais, favorecem uma exposição de jornalismo bem mais próxima da colaboração que aquela provida pelos portais. Neste estágio da pesquisa, no entanto, não nos ateremos ao estudo dessas iniciativas, especialmente pela falta de abrangência de seu público, como definido previamente em nosso recorte. Porém neste âmbito também é possível enxergar uma série de estudos possíveis para buscar melhor compreender a natureza e a prática do jornalismo colaborativo no Brasil.


[1] KOVACH, Bill & ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo: O que os jornalistas devem saber e o público exigir. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

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