Por que o jornalismo colaborativo não dá certo no Brasil?

A consolidação do jornalismo colaborativo ainda depende de um longo caminho no Brasil, ligado principalmente ao despertar do engajamento do (antigo) público com sua realidade, sua necessidade informativa, a necessidade de conhecimento sobre a própria realidade para então, vendo seu reflexo, enxergar-se capaz de transformá-la.

Nosso estudo conseguiu identificar o baixo comprometimento do interator com o noticiário dos grandes portais brasileiros, com o processo jornalístico como um todo. Se considerarmos a evolução da colaboração segundo os níveis de participação de Bowman e Willis (2003) e Bruns (2005), o internauta brasileiro, que predominantemente envia breves registros flagrantes da realidade aos grandes portais, está, ao menos nestes ambientes, no primeiro degrau da escala do interator.

Visão consoante com a impressão de Erin Mizuta, editora do VC Repórter:

“Os brasileiros ainda não estão familiarizados com o conceito do jornalismo colaborativo —e também de jornalismo, principalmente na Internet. Aos poucos, eles estão descobrindo que a foto postada no Orkut e que fez tanto sucesso porque mostra o dia-a-dia de quem sofreu com uma cheia, por exemplo, pode virar (e é) uma notícia. Ou que o problema que atinge o bairro, e que vira tema de debate em uma comunidade, pode ser cobrado das autoridades por uma matéria de denúncia.”¹

Ainda falta ao internauta brasileiro dos grandes portais de conteúdo compreender e praticar a checagem dos fatos, realizar a apuração complementar de dados e eventualmente até conferir ao material edição jornalística —embora, para tanto, seja preciso que os veículos em questão também possuam plataformas e pontos de vista mais abertos que os atuais para o envio e edição de conteúdos por parte do (antigo) público — que só então poderá, nestes contextos, receber precisamente o título de cidadão-repórter. O que é pouco provável que aconteça, na visão de Rodrigo Flores, do UOL:

 “Temos usado o jornalismo colaborativo no UOL, o Jornal Nacional todo dia tem exibido alguma coisa do público. Então depende do modelo que você considera para dizer que está dando certo ou não. No meu entendimento o fenômeno é crescente, e temos que usar cada vez mais. Mas não creio que vamos usar [na grande imprensa] modelos muito puros, que acreditam exclusivamente na auto-regulação.”²

A preocupação de Flores parece ser a de relegar ao (antigo) público um trabalho que é do jornalista. Márion Strecker, diretora de conteúdo do UOL, mostra ponto de vista semelhante ao situar a colaboração como companheira inseparável do jornalismo, desde as origens do próprio jornal impresso —porém, sem considerar um papel ativo do público diante do processo jornalístico em si:

 “O público sempre participa e sempre participou em alguma medida do noticiário. Os jornais, esse veículo do século 19, sempre tiveram em certa medida a colaboração do leitor, expressa em seção de cartas, em críticas para ombudsman, repórteres sempre foram às ruas e tiveram contato direto com o público e aprenderam alguma coisa com isso. (…) Entre ter o público como personagem e tê-lo como autor, há um amplo espectro de atividades, que podem e são exploradas. Por exemplo, você pode ter uma repórter do UOL, a Daniela Paixão, saindo com um cinegrafista e ouvindo pessoas na rua. Ou você pode ter depoimentos de pessoas, feitos em vídeo, elas mesmo se filmando, enviadas espontaneamente ou por estímulo do portal. Isso tudo o UOL utiliza cotidianamente. Estou dando alguns exemplos bem clássicos, só para explicar que, na minha visão, não existe uma linha divisória muito definida entre o jornalismo colaborativo e o não colaborativo, porque a gente vive em sociedade, e o nosso jornalismo trata de questões sociais, ele é feito para a sociedade e sobre a sociedade. O jornalismo não-colaborativo seria o quê? O jornalismo ditatorial, imperial, divino?”2

O questionamento de Strecker revela, nas entrelinhas, o posicionamento dos veículos de comunicação para a manutenção da legitimidade social do jornalismo tradicional, visão que parece entrar em confronto com novos modelos de comunicação em rede propostos pela Internet. Bruns (2005) consegue mapear o fenômeno com precisão quando propõe a superação do modelo de gatekeeping, tão familiar à prática jornalística, pelo de gatewatching, que coloca a imprensa como nó em uma rede de relações entre acontecimentos, fontes, leitores, colaboradores —e não como centro para onde sempre convergem as informações, como vimos nas definições de Bowman e Willis (2003) apresentadas no capítulo 2. Além disso, casos que recentemente ganharam repercussão entre jornalistas ajudam a compreender o fim deste “absolutismo” da imprensa —a polêmica envolvendo o blog “Fatos e Dados”, criado pela área de comunicação da Petrobras em maio de 2009, para publicar informações sobre a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) instaurada no mesmo mês para investigar supostas fraudes da estatal e também publicar respostas da empresa aos veículos que começaram a cobrir as investigações³; e os protestos da população iraniana divulgados pelo Youtube após a polêmica eleição de junho de 2009, que reelegeu Mahmoud Ahmadinejad*.

No primeiro caso, a Petrobras decidiu divulgar em um blog as respostas às questões feitas por jornalistas à empresa, mesmo antes que as matérias fossem publicadas. A abertura destas informações gerou fortes críticas por parte de jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, além da ANJ (Associação Nacional de Jornais), para quem a estatal estaria tentando intimidar a imprensa desrespeitando a confidencialidade que orienta jornalistas na relação com suas fontes. Não há, porém, ética estabelecida no caminho contrário. E com a Internet a imprensa não é mais o único canal disponível para fazer sua voz chegar ao público —a reação dos jornais talvez tenha sido mais contra este fenômeno de nosso tempo do que contra a Petrobras em si.

No caso das eleições no Irã, vídeos feitos por cidadãos registrando os protestos que eclodiram em Teerã e por todo o país começaram a aparecer no Youtube após o dia 12 de junho de 2009, quando Ahmadinejad foi reeleito no primeiro turno em um cenário de dúvidas sobre fraudes na apuração. Mesmo redes como a CNN, da imprensa ocidental dita “liberal” —em contraste à imprensa iraniana, supostamente sob censura do Estado—, não foram capazes de mostrar a tensão e a violência nas ruas do país de forma tão rápida quanto o Youtube, o Twitter, enfim, os repositórios de conteúdo gerado pelo usuário (UGC). Mais uma vez a informação dispensou a imprensa para circular.

Como o jornalismo deve encarar este novo cenário? Será que a Internet e a colaboração vão acabar com o jornalismo e os jornalistas? “Não existe uma disputa entre tipos de jornalismo. Ou uma coisa é notícia ou não é. E o critério do que é notícia tem vários níveis e cada leitor escolhe os filtros que deseja usar para chegar ao que ele considera notícia”, acredita Caíque Severo, do iG. Ronaldo Lemos, do Overmundo, acredita em um futuro de equilíbrio entre o jornalismo tradicional e o colaborativo:

“Inevitavelmente o jornalismo colaborativo vai transformar o jornalismo tradicional. Mas cada vez mais há a percepção de que a ideia de jornalismo tradicional é um bem público, por questões que envolvem reputação e recursos. O jornalismo investigativo, por exemplo, é caríssimo de ser feito e não há como negar que ele tenha uma função importantíssima. Acho que o futuro se definirá no processo de equilíbrio, em que o jornalismo colaborativo amplia as fronteiras da ideia de jornalismo, mas há uma percepção de que ter partes centralizadas da prática de jornalismo também é importante.”

Casos como o do blog da Petrobras e as eleições iranianas são evidencias claras de que é necessário ao jornalismo buscar uma nova posição no cenário midiático, quiçá no cenário social. Se, por um lado, vozes sociais antes dependentes da mídia para chegar ao público começam a emergir à revelia da imprensa, de outro ponto de vista a sociedade continua a relegar à categoria de profissionais conhecida como jornalistas o trabalho de localizar, em meio ao mar de informações diárias, submersas ou aparentes, o que é ou não importante, o que merece ser investigado e trazido à luz. Numa espécie de “contrato social”, como o de Rosseau, o cidadão parece abrir mão do engajamento informativo para que exista a mídia, assim como abre mão de sua liberdade para que surjam as leis, o Estado, a sociedade em si. Pensar nesta nova posição do jornalismo e dos jornalistas perante o novo cenário colaborativo exige pois, em nosso ponto de vista, a formulação e a execução de um novo “contrato midiático”, capaz de envolver o público e a mídia e que seja legitimado pelo próprio envolvimento coletivo.

Inevitável que este novo acordo informativo passe pela conscientização do (antigo) público sobre seu papel no conhecimento e na transformação da própria realidade. Para Márion Strecker, do UOL:

“O problema no Brasil é a falta de consciência de cidadania. Acho que essa é a razão de o jornalismo colaborativo não dar certo por aqui. O cidadão raras vezes se sente dono da sua cidade, tem a consciência do quanto imposto ele paga, e do quanto ele pode cobrar dos nossos governantes. Ninguém lembra em quem votou para deputado, para prefeito na última eleição. A atividade política é baixa, associações de bairros são poucas. O engajamento social é alto, mas o político é muito baixo. Se o voto não fosse obrigatório no Brasil, a quantidade de pessoas que votam cairia drasticamente. As pessoas não leem os programas, não vão às convenções, pedem santinho para colar voto no dia da eleição porque o voto é obrigatório. Então falta consciência dos próprios direitos, falta cobrança, com isso falta motivo para exercer uma atividade jornalística que deve ser essencialmente crítica. Porque se não é crítica, não é jornalismo, é propaganda.”

Erin Mizuta, do Terra, acredita que a tendência é haver maior participação de atores sociais no que é publicado pela imprensa, e a evolução do estado atual do jornalismo colaborativo no Brasil também depende de uma maior consciência social:

 “Acredito que ela exige uma mudança não só no jornalismo colaborativo, mas na educação em geral, na consciência social, política e até jurídica das pessoas, até para que elas saibam o que pode acontecer se elas publicarem uma notícia falsa. (…) Para que você quer uma nação inteira de jornalistas? É utópico. É o fim do jornalismo. Haverá sim, mais colaboração de quem participa dos acontecimentos. Mas isso não será o fim, só uma mudança.”

Uma das vias possíveis para a conscientização do (antigo) público “oprimido” pela mídia de massa pode ser o resgate da função educativa do jornalismo —e, em nosso intuito de apontar caminhos para estudos futuros, pretendemos aqui traçar um paralelo entre as vocações do jornalismo colaborativo e a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.


[1] Em entrevista ao autor.

[2] Em entrevista ao autor

[3]Blog da Petrobras opõe visões sobre transparência e jornalismo. Disponível em: <http://www.direitoacomunicacao.org.br/
content.php?option=com_content&task=view&id=5106
>. Acesso em: 12 ago. 2009

[4] Internet noticia acontecimentos do Irã e bate imprensa tradicional. Disponível em: <http://www.geek.com.br/posts/10222-internet-noticia-acontecimentos-do-ira-e-bate-imprensa-tradicional>. Acesso em: 15 jun. 2009

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s