O desafio da credibilidade e os limites do jornalismo colaborativo

Seja ele cidadão-fonte ou cidadão-repórter, o interator que participa do noticiário dos grandes portais tem outro desafio constante: o da credibilidade. Conforme os critérios do discurso jornalístico, a apuração e o cruzamento de informações entre fontes é fundamental para conferir credibilidade ao texto jornalístico:

“Toda boa reportagem exige cruzamento de informações. Esse mecanismo jornalístico consiste em, a partir de um fato transmitido por uma determinada fonte, ouvir a versão sobre o mesmo fato de outras fontes independentes. O recurso é útil tanto para comprovar a veracidade de uma notícia quanto para enriquecer a reportagem com aspectos não formulados pela fonte original.” (MANUAL DA REDAÇÃO: FOLHA DE S.PAULO, 2006, p. 26)

Deste ponto de vista, o relato pessoal sobre uma experiência torna-se insuficiente para fazer de um texto crível por si só, sem que haja um maior trabalho de apuração por parte das redações dos veículos. Para esta inferência, contribuíram tanto o cidadão-repórter —que em geral não se preocupou em procurar fontes de informação ou explicitar técnicas de apuração utilizadas, o que traçaria ao menos os limites da informação— quanto os portais Terra e Globo.com, cujos serviços participativos não possuem perfis dos jornalistas cidadãos, nem mecanismos de pontuação ou algoritmos sociais —como tempo de participação, registros de navegação— que permitam ao leitor conhecer e avaliar por conta própria se o autor do material possui credibilidade anterior ou algum grau de distanciamento dos temas abordados para tratá-los com imparcialidade.

“Os algoritmos sociais não servem apenas para avaliar a performance dos participantes, eles também qualificam a relevância do conteúdo publicado. A medição da performance do conteúdo pode ser estimada a partir dos seguintes elementos: número de acessos, de comentários relacionados, de notificações enviadas por e-mail para que outras pessoas acessem, de recomendação de usuários com boa performance, entre outros. Esses dados servem para o sistema avaliar, por exemplo, se um vídeo postado como ‘muito engraçado’ tem realmente essa característica. Se foi assistido muitas vezes e os usuários tiverem publicado comentários e enviado recomendações por e-mail, é sinal de que essas pessoas aprovaram o conteúdo.” (SPYER, 2007, p. 78).

Este vácuo de credibilidade criado entre cidadão-repórter e veículo abre espaço, segundo a análise dos dados, para a possível veiculação de material de divulgação no noticiário. Um exemplo do qual é possível inferir a hipótese são as matérias “Dia Internacional da Mulher agita o centro de São Paulo”[1], publicada em 09/03/2009 pelo VC no G1, e “Mulheres têm serviços gratuitos no seu dia”[2], publicada em 10/03/2009 pelo VC Repórter, ambas com autoria do internauta Cristiano dos Santos. “Segundo os organizadores, aproximadamente 8.000 pessoas passaram pelo evento durante o sábado. E a expectativa era de até 15.000 visitantes nesse domingo”, diz o texto, sem clarificar se os organizadores foram ouvidos por Cristiano ou pela reportagem dos veículos. O que impede que o autor seja ele mesmo integrante da organização do evento, e tenha se utilizado do discurso jornalístico para divulgá-lo? Quão envolvido com o fato relatado está o autor? Caso ele faça realmente parte da organização do evento, quais são as implicações da acolhida de seu texto em um serviço de jornalismo colaborativo? Bastaria, neste caso, a simples checagem dos fatos pela equipe de jornalistas moderadores? O quanto esta prática abala a credibilidade do texto? Para Rodrigo Flores, gerente geral de notícias do UOL, o jornalismo online está mais maduro e preparado para evitar fraudes em relação a conteúdo enviado pelo usuário, mas não imune a elas.

“Poderia sim voltar a acontecer. Se você se dispõe a adotar este recurso de colaboração em um portal do tamanho do UOL, é muito difícil estabelecer os filtros necessários para evitar uma fraude. O risco da mentira está presente a todo momento. A partir do momento em que você registra uma entrevista de alguém, você corre esse risco. ‘Eu vi o avião cair’, mas não viu. O desafio do jornalismo é tentar chegar perto do risco zero.”

Outro trecho do texto publicado pelo VC no G1 também deixa a impressão de que o site pode ter acolhido material de divulgação: “A atração que mais chamava atenção eram duas garotas segurando uma placa no meio da multidão, onde estava escrita a frase: ‘Troco sonhos’. As mulheres, após dizerem para essas garotas quais eram os seus sonhos, ganhavam um bombom Sonho de Valsa.” Ao publicar um simples relato pessoal sobre um evento, sem clarificar que as fontes de informação citadas foram checadas e/ou apuradas pela própria redação, e também sem conhecer o perfil do autor e estar certo de que ele não trabalha para a fabricante da marca de bombons —nem outra empresa coligada—, é impossível excluir a hipótese de que o site de jornalismo participativo da Globo.com tenha feito divulgação espontânea da marca de chocolates.

Casos não faltam em que os veículos analisados publicam relatos pessoais sobre um evento ou textos com ar de divulgação, especialmente em matérias na área de Cultura/ Entretenimento. É o caso das matérias “Larissa Costa é eleita a nova Miss RN”[3] (VC no G1), “Peça mostra fim da escravidão em Porto Alegre”[4] (VC Repórter) e “Grupo caribenho Florida Memorial Steelband toca em Salvador”[5] (VC no G1). A mera descrição factual, somada ao registro fotográfico, confere ao material característica de testemunho, o que novamente abala a credibilidade pela ausência de verificação e citação de outras fontes. Porém, no contexto do jornalismo colaborativo, esta credibilidade não é automaticamente conferida ao material pela marca ou pela redação do veículo, e deve ser conferida ao material pela checagem por parte dos jornalistas que moderam o serviço. Ou pelo próprio leitor, em conjunto com o jornalista cidadão, na medida em que o primeiro seja capaz de avaliar o perfil e as credenciais do último, desvinculando-o do fato apurado em benefício da isenção, e também capaz de avaliar o método de apuração utilizado, para só então decidir se o material é crível ou não. No caso dos sites analisados, nenhuma das duas hipóteses é comunicada com clareza ao leitor, o que tende a abalar a credibilidade dos serviços de colaboração dos grandes portais. Para Márion Strecker, diretora de conteúdo do UOL, este é um dos principais calcanhares de Aquiles do jornalismo colaborativo:

“Essa questão que me arrepia, criar um veículo em que jornalistas não fazem jornalismo, mas apenas recebem e rechecam material externo, enviado por pessoas não treinadas, sem capacitação para isso —o custo de um jornalista checar devidamente um texto externo pode ser tão alto ou maior do que o custo de produzir um texto original, uma reportagem original. Claro que depende do grau de ambição de qualidade desse veículo —quanto mais alta a ambição, mais alto o custo de produção. Então se o assunto é só o buraco de rua, tudo bem. Mas se o assunto é investigar um crime de colarinho branco, para citar dois extremos, a coisa se complica.”

Strecker questiona se o jornalismo colaborativo não é uma maneira de baratear os custos de produção do jornalismo por forças de mercado que hoje concorrem com os veículos de mídia tradicionais. “Quem não conhece ou não valoriza o bom jornalismo acha quimérica a possibilidade de fazer jornalismo sem jornalistas. Afinal não é o que o Google tanta fazer com o Google News? Será que o Google pensa nos objetivos ou por quem os veículos que ele exibe estão sendo guiados?”

Lemos, do Overmundo, é mais taxativo. Para ele, em alguns casos o jornalismo colaborativo é sim uma forma de baratear custos de produção. “Uma das lições que aprendemos com o Overmundo é que a rede e a colaboração faz muito por você, mas não faz tudo. Será sempre necessário ter uma equipe de moderação, edição ou interação, por menor que ela seja.” Ele concorda com Strecker, no entanto, ao considerar caro o processo jornalístico que se aprofunda na apuração e na reportagem:

“Inevitavelmente o jornalismo colaborativo vai transformar o jornalismo tradicional. Mas cada vez mais há a percepção de que a ideia de jornalismo tradicional é um bem público, por questões que envolvem reputação e recursos. O jornalismo investigativo, por exemplo, é caríssimo de ser feito e não há como negar que ele tenha uma função importantíssima. Acho que o futuro se definirá no processo de equilíbrio, em que o jornalismo colaborativo amplia as fronteiras da ideia de jornalismo.”

Assim como ele, Flores, do UOL, Mizuta, do Terra, e Severo, do iG, acreditam que a colaboração do público na construção do noticiário é uma tendência impossível de reverter. Como então equilibrá-la e fomentar uma participação mais engajada do público brasileiro, sem ferir o bom jornalismo?


[1] “Dia Internacional da Mulher agita o centro de São Paulo”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1034520-8491,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

[2] “Mulheres têm serviços gratuitos no seu dia”. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3621075-EI306,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

[3] “Larissa Costa é eleita a nova Miss RN”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1040266-8491,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

[4] “Peça mostra fim da escravidão em Porto Alegre”. Disponível em: <http://diversao.terra.com.br/interna/0,,OI3626002-EI1539,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

[5]“Grupo caribenho Florida Memorial Steelband toca em Salvador”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1041473-8491,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

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2 comentários sobre “O desafio da credibilidade e os limites do jornalismo colaborativo

  1. Boa Tarde, Gostaria se for possível, receber via email (balbernaz@gmail.com) os créditos deste texto. Nome completo do autor, data e local que foi escrito, para que eu possa creditar o texto em meu projeto final de Monografia.

    Desde já agradeço,
    Bruno Albernaz

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