Graus de participação do usuário no jornalismo colaborativo

Ao lado do baixo número de fontes citadas no decorrer das matérias publicadas pelos veículos colaborativos nos portais brasileiros de conteúdo, nosso estudo também procurou avaliar se havia nos textos da amostra indícios claros de que fora o próprio colaborador a contatar as fontes, o que só ocorreu em 2,4% (4) das matérias. Entre as fontes no material que analisamos, duas matérias citam amigos dos cidadãos-repórteres, uma cita testemunha que preferiu não se identificar, e outra um técnico que aparentemente foi abordado pelo colaborador no local do acontecimento.

Só 2,4% do jornalismo colaborativo dos portais brasileiros, portanto, pode ser comparado conceitualmente ao que propõem Gillmor (2004) e Bowman e Willis (2003) como jornalismo colaborativo, ao menos em seus graus mais avançados de engajamento.

O baixo comprometimento do interator, o usuário que participa do noticiário dos grandes portais brasileiros, leva-nos a acreditar que o jornalismo colaborativo ainda está em seus primeiros passos no Brasil e pouco atingiu o objetivo de democratizar a mídia, dar ao público verdadeiro poder sobre o noticiário, como apregoa Gillmor (2004, p. 137). Comparados aos níveis de participação de Bowman e Willis (2003), os dados obtidos pelo estudo indicam que o internauta brasileiro que participa dos serviços colaborativos ainda se concentra na atividade do registro flagrante, primeiro degrau de colaboração na escala do interator. A checagem dos fatos, a apuração complementar e o trabalho de edição verificado no noticiário open source ainda são objetivos a atingir.

Na maior parte das vezes, os serviços colaborativos representam apenas um canal adicional de recepção de informações, assim como uma simples fonte ou assessoria de imprensa. Em um segundo momento as informações são apuradas e complementadas pela redação, que lhe confere inclusive formato jornalístico —de acordo com o levantamento, 91% (150) das matérias do corpus possuíam o formato de pirâmide invertida, que acompanha a linguagem jornalística desde o século 19 (PENA, 2005, p. 48). No VC Repórter, que possui mais intervenção da redação no material enviado pelos colaboradores, este índice sobe para 99% (103 matérias), contra 75% (47 matérias) do VC no G1. Este cenário evidencia o distanciamento do público em relação à atividade jornalística, e, em nossa visão, a necessidade de uma abordagem diferente por parte dos serviços de jornalismo colaborativo dos grandes portais, de forma a motivar o engajamento do público na descoberta e registro crítico e aprofundado de sua própria realidade. Pretendemos abordar alguns destes caminhos possíveis no próximo capítulo.

Outra evidência de que nos grandes portais brasileiros o cidadão-repórter pode ser considerado um “cidadão-fonte” é o uso de declarações do colaborador em aspas no decorrer do texto, em paralelo à citação de outras fontes, ou mesmo como a única fonte do texto —o que por si só já implica perda de credibilidade do material, conforme a própria opinião de Mizuta, do Terra, e também conforme conceituado no capítulo 2. A prática foi detectada com maior incidência no VC Repórter, do portal Terra, em matérias como “Zona norte de SP sofre com falta d’água”[1]. O texto aborda o drama do morador Cristiano Gregório —cujas declarações são citadas entre aspas, mas ao mesmo tempo assina o material— generalizando-o para todos os moradores do bairro, sem que houvesse apuração, nem por parte do colaborador, nem por parte da redação, de mais informações sobre o número de pessoas afetadas, ou uma estimativa de soluções de curto prazo por parte da companhia de saneamento básico do Estado.  Outro caso foi a matéria “Defeito em novo CD do U2 decepciona fãs”[2], também publicada pelo VC Repórter. O texto traz uma denúncia de um único colaborador —de que havia um problema no encarte do novo álbum da banda irlandesa—, neste caso confirmada pela gravadora Universal Music no Brasil. A verificação da denúncia com a outra parte envolvida garantiu, de um lado, a credibilidade da informação. Porém, ao utilizar frases do colaborador Everson Candido entre aspas no decorrer do texto, o VC Repórter coloca o usuário no papel de fonte, e não de autor do material. O estudo identificou na amostra pelo menos outros sete casos em que os colaboradores foram citados como fontes.

Erin Mizuta, editora do VC Repórter, do Terra, acredita que o internauta que participa dos sites de jornalismo colaborativo no Brasil encontra-se em uma fase intermediária entre cidadão-fonte e cidadão-repórter:

“Ele não é apenas uma fonte, porque ele não é só a referência sobre determinado assunto, é também o principal interessado em ver outros lados. Nem é apenas um repórter, porque a matéria não pode ser construída com base no seu ponto de vista. Um repórter contratado para um meio de comunicação conta total credibilidade da empresa em seu relato. No caso do jornalismo colaborativo, não sei se um dia isso será possível. Como disse, todas as notícias partem, de um jeito ou outro, de interesses pessoais. (…) O cidadão-repórter transforma a função do jornalista. E eu acredito e concordo com isso. Se eles são os pauteiros/repórteres, cabe a nós sermos editores.”

Sob esta óptica, o internauta que envia uma foto e um breve relato à redação dos portais pode também ser encarado como cidadão-pauteiro, espécie de “editor de planejamento, o primeiro homem a pensar no jornal do dia seguinte” (LAGE, 2001, p. 37). Rodrigo Flores, gerente geral de Notícias do UOL, tem visão semelhante:

“O jornalismo colaborativo está muito ligado ao processo de pauta. Embora o UOL não tenha canais abertos específicos para pautas, as pessoas usam todos os canais possíveis para nos pautar. E já fizemos inúmeras matérias com base nesse tipo de contato do público. Sem a pauta, a sugestão do público, o jornalismo fica muito mais difícil. A reportagem é a execução. A edição ainda fica por conta de nós jornalistas.”

Para Caíque Severo, do iG, o tratamento que cada veículo dá a sua iniciativa de jornalismo colaborativo também ajuda a definir se a participação do usuário vai ser usada como fonte de informação ou notícia pronta. “Nessa decisão deve pesar uma avaliação de quantos participantes o veículo deseja ter, disse, em entrevista ao autor. Com isso, quanto mais rigoroso o critério editorial adotado pelo veículo ou mais amplo o recorte necessário a transformar um fato em notícia, menos espaço terá o conteúdo colaborativo. “Naturalmente vai existir muito mais gente que simplesmente criou um perfil em uma rede social do que aqueles que têm a capacidade e disposição de produzir qualquer conteúdo. É uma escadinha. Quanto mais complexa a participação, menos atores.”

Se cidadão-repórter, cidadão-fonte ou cidadão-pauteiro, para Flores, do UOL, é uma questão semântica. Pelo menos na configuração que o UOL adota para absorver o conteúdo do público, a responsabilidade completa pela reportagem, segundo ele, não pode ser transferida para o internauta. Ela permanece nas mãos dos editores, jornalistas contratados que trabalham para o UOL:

“Ele contribui para a reportagem, ele não é o repórter. Se você quiser chamá-lo de repórter eu também não me ofendo, porque volta e meia existe essa discussão. Acho que o jornalismo muito dificilmente é feito sem a participação do público, mesmo passivamente. O que muda é que o cidadão passa a ser mais ativo diante deste processo. Também me sinto um pouco incomodado de não considerar o cidadão que contribui em casos como o que fizemos [durante as enchentes] em Santa Catarina, em que as pessoas mandaram fotos da tragédia e seis meses depois pedimos para elas retornarem ao local das fotos e mandarem as fotos dos lugares. Poxa, o internauta fez o trabalho todo, ele fez a reportagem para nós. (…) Mas posso chamá-lo de fonte? Difícil. Em alguns casos sim, mas em outros ele é co-autor. Isso depende do grau de participação. Quando ele contribui com um depoimento, ele é fonte, ele conta o que aconteceu. Mas quando ele vai até um local pautado por nós e produz uma foto, ele é co-autor. No caso de Santa Catarina, a pauta foi nossa, ele fez a reportagem e nós editamos —colocamos numa casca, pusemos uma legenda e publicamos.”

A nosso estudo, no entanto, é válido classificar duas formas diferentes de participação: uma, mais ativa e coerente com práticas propostas por Bowman e Willis (2003) e Gillmor (2004), em que uma pessoa testemunha um fato, busca informações adicionais sobre ele (textos, fotos, vídeos, entrevistas), checa informações e cruza dados, enviando-o em seguida a um veículo de informação; outra, em que uma pessoa testemunha um fato e tão logo quanto possível envia um breve relato ou registro fotográfico ao veículo. Na primeira existe esforço de apuração e checagem de dados, o que aproxima a prática do leitor do jornalismo. Na segunda existe apenas o registro de um fato e sua transmissão ao canal de comunicação —o que exigiria outra denominação, que não a de cidadão-repórter, ao participante do noticiário. A seguir buscamos fazer uma proposta, de acordo com os níveis de participação de Bowman e Willis (2003) e Bruns (2005) apresentados anteriormente no capítulo 2.

TABELA 8

Denominação do Participante no Jornalismo colaborativo

Jornalismo Colaborativo - Níveis de Participação


[1] “Zona norte de SP sofre com falta d’água”. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3611091-EI8139,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

[2] “Defeito em novo CD do U2 decepciona fãs”. Disponível em: <http://musica.terra.com.br/interna/0,,OI3627901-EI1267,00.html>. Acesso em: 13 mar. 2009.

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