Jornalismo colaborativo

O jornalismo colaborativo é objetivo de pesquisa desde 2006, quando comecei a estruturar meu mestrado em Jornalismo e Mídias Digitais na Escola de Comunicações e Artes da USP. Ele foi um dos responsáveis por manter em mim alguma esperança na função social da profissão, em sua capacidade de despertar a consciência das pessoas, dando a elas maior capacidade para compreender o mundo, dialogar com ele —e a partir daí transformá-lo.

Muitas coisas aconteceram no decorrer do estudo. Meu interesse primeiro era compreender modelos de colaboração —como as diversas formas de construção coletiva de conhecimento que eclodiram na era da Internet poderiam ajudar o jornalismo, e vice-versa.

A partir daí percebi que o jornalismo colaborativo adotado pelos grandes portais brasileiros —que despertaram meu interesse pela abrangência de público que conquistaram no país— não desperta o engajamento do leitor com a produção da informação, e muito menos os veículos demonstram esta preocupação, ao utilizarem o material enviado por internautas como mero ponto de partida para um processo de apuração. Com isso, passei a questionar o conceito de cidadão-repórter no caso brasileiro, já que a prática da colaboração jornalística, ao menos as mapeadas como ícones do fenômeno no exterior por autores como a Ana Maria Brambila, prevê a participação do antigo “leitor” como protagonista do processo noticioso, e não apenas como coadjuvante.

Estes questionamentos levaram à publicação de um artigo no Simpósio Internacional de Jornalismo Internacional de 2009, em Austin, Texas (EUA), sob o título “Jornalista cidadão ou fonte de informação: estudo exploratório do papel do público no jornalismo participativo dos grandes portais brasileiros. Escrito em conjunto com minha orientadora, a Beth Saad, o artigo procurou traçar o estado do jornalismo colaborativo praticado por dois grandes portais brasileiros —Terra e Globo.com.

Quatro anos de pesquisa resultaram em minha dissertação de mestrado, apresentada à Escola de Comunicações e Artes da USP em setembro de 2010 e que passo a publicar neste blog agora em 2011. No decorrer de todo este tempo, a descoberta da Pedagogia do Oprimido e o estudo, ainda que superficial, das Raízes do Brasil me fizeram acreditar que o jornalismo colaborativo só poderá ser integralmente adotado no Brasil se, em primeiro lugar, a cabeça do jornalista mudar. Em vez de difusor, ele precisa enxergar-se como educador/comunicador, alguém que deve despertar no (antigo) público sua própria visão de mundo.

Nos dizeres de Paulo Freire…

“Se é dizendo a palavra com que, “pronunciando” o mundo, os homens o transformam, o diálogo se impõe como caminho pelo qual os homens ganham significação enquanto homens. Por isto, o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes. (…) Porque é encontro de homens que pronunciam o mundo, não deve ser doação do pronunciar de uns a outros. É um ato de criação. Daí que não possa ser manhoso instrumento de que lance mão um sujeito para a conquista do outro. A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro. Conquista do mundo para a libertação dos homens.” (FREIRE, 2005, p. 91)

Com a esperança de que o jornalismo ajude o homem a conquistar o mundo e a si mesmo, deixamos aqui nossa contribuição para a pesquisa do jornalismo colaborativo e das mídias sociais.

6 comentários sobre “Jornalismo colaborativo

  1. Pingback: Jornalismo colaborativo: um cidadão repórter, dois veículos diferentes « Clico, logo existo

  2. Madureira, parabéns. Além do nome sugestivo do blog, sua empreitada é inovadora, pois isso além de polêmico já demanda “coisas” que muitos palpitam mas dificilmente concluem!
    No blog que toco com colegas professores e alunos, o webjorsuperação, criei na lateral direita um espaço modesto de links open source. Visite e confira.http://webjorsuperacao.blogspot.com
    No mais, vamos por aí, visitando, falando, sugerindo enquanto seu bolo dissertativo cresce!
    abs
    Willweb

  3. Pingback: Artigo sobre jornalismo colaborativo « Clico, logo existo

  4. Pingback: Artigo sobre jornalismo colaborativo no Brasil « Clico, logo existo

  5. Olá! Estava procurando sobre a Janet Murray no google e encontrei um pequeno artigo seu sobre as características que ela atribui às narrativas digitais. Me ajudou a fazer um exercício da faculdade(estou no 4º semestre de jornalismo no Mackenzie)… vi que vc escrevia bem, imaginei que fosse aluno da ECA e resolvi entrar no seu blog… agora vi que está no mestrado. Me identifiquei com sua linha de pesquisa. Obrigada por ainda acreditar no potencial de transformação da sociedade por meio do jornalismo! É muito importante para mim ouvir isso de alguém que já dá aula! Tendo a escutar que isso é coisa de estudante… Enfim, faço iniciação científica com tema voltado para a relação entre esse jornalismo possível e o pensamento de Paulo Freire. Está bastante abrangente e tenho pensado em desenvolver outra pesquisa, mais tarde, sobre o quanto as mídias interativas podem contribuir para desenvolver essa potencialidade humanizadora e freireana adormecida no jornalismo.
    Vim pelo seu texto falando da Janet Murray e encontrei sobre jornalismo colaborativo! Então gostaria de saber o que você acha dessa ideia, gostaria de manter contato com você… vou entrar no seu blog outras vezes!
    desculpa parecer “interesseira”, mas gostei muito da coincidência e essa é mais uma das maravilhas da rede!

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