Hiperlocalismo e critérios de noticiabilidade no jornalismo colaborativo brasileiro

Um dos objetivos de nosso estudo sobre jornalismo colaborativo foi compreender se as iniciativas dos grandes portais brasileiros —que apresentam significativa audiência e atratividade diante do público— conseguiram abarcar a colaboração com profundidade e abrangência semelhantes às obtidas em experiências internacionais como as estudadas por Brambilla (2005) e Bruns (2005).

Para tanto, estruturamos um estudo exploratório de campo com notícias dos sites participativos de Globo.com e Terra. A primeira etapa da análise de conteúdo empreendida pela pesquisa foi classificar as notícias de acordo com área editorial a que se filiavam. Das 165 notícias analisadas, 105 abordavam temas ligados à editoria de Cidades, em que incluímos assuntos ligados ao cotidiano, como trânsito ou registros das condições do clima. Os assuntos que mais se destacaram neste grupo foram acidentes de trânsito próximos ao local de residência dos colaboradores e estragos relacionados à temporada de chuvas do final do verão brasileiro.

GRÁFICO 1

Notícias por Área Editorial

Notícias por Área Editorial

Em segundo lugar aparecem 41 matérias com temas ligados à Cultura e Entretenimento, com a maior incidência de registros de shows. Em terceiro lugar aparecem matérias de Esportes, com registros de competições locais ou a visita de grandes times nacionais a cidades do interior, como o caso do jogo do Corinthians em Marília[1], no contexto da expectativa pela estreia do jogador-celebridade Ronaldo. Por fim, a categoria Outros reúne matérias de serviços ou material considerado pela pesquisa como reprodução de material de divulgação ou press releases. Por fim, temas internacionais, ligados à educação, à política e à tecnologia somam juntos apenas dez matérias, menos de 10% da amostra.

A jornalista Erin Mizuta, editora do VC Repórter, do Terra, confirma em entrevista ao autor que a editoria de Cidades é a mais utilizada, seguida pela de trânsito —cujo material contabilizamos também na área de Cidades/Cotidiano. Segundo Mizuta:

“A maioria são notícias do cotidiano, fatos que afetam diretamente o leitor. São fatos fáceis de serem distinguidos como notícia: acidentes de trânsito, buracos e problemas em ruas ou estradas, alagamentos e árvores caídas são bem freqüentes. Fatos relacionados a chuvas e demais fenômenos climáticos são sempre assunto. Manifestações também contam sempre com registros de colaboradores.”[2]

A predominância de material ligado à vida cotidiana também ocorre no VC no G1, porém, não pudemos contar com depoimentos de jornalistas da Globo.com sobre o site, conforme detalhado no capítulo anterior.

Definidos os temas de maior interesse —atributo de definição do jornalismo, segundo Chaparro (1993, p. 120)— procuramos identificar que critérios de noticiabilidade foram utilizados com maior freqüência pelos cidadãos-repórteres ao enviar material aos editores dos sites colaborativos dos portais Terra e Globo.com. Em primeiro lugar, com 146 matérias, apareceu o critério da atualidade, seguido de perto pela proximidade, com 130 notícias. Nitidamente, os cidadãos-repórteres registravam acontecimentos que de alguma forma flagravam em seu dia-a-dia, fossem acidentes, shows, flagrantes de variações climáticas e suas conseqüências etc.

GRÁFICO 2

Notícias por Critério de Noticiabilidade

 Notícias por Critério de Noticiabilidade

Em seguida temos 73 matérias que utilizam as conseqüências do fato como valor-notícia. A maioria era relacionada a acidentes ou a denúncias sobre má conservação de vias ou outras instalações públicas. Curiosidade é o próximo critério utilizado com mais frequência, com um total de 48 matérias —aqui a variedade dos temas vai de “Cores no céu intrigam moradores de SP e do RS”[3], publicada pelo VC Repórter, do Terra, a “Eu tenho um carro nas cores prata e rosa”[4], registrada no VC no G1, da Globo.com.

Dentro deste critério surgiram materiais bastante peculiares, como “Temos xodó pelo nosso carro Zé do Caixão”[5], publicada pelo VC no G1 —simples relato pessoal e extremamente breve, poderia ser considerado “notícia”?

Notícia "Temos xodó pelo nosso carro Zé do Caixão", publicada pelo VC no G1, da Globo.com

Notícia "Temos xodó pelo nosso carro Zé do Caixão", publicada pelo VC no G1, da Globo.com

Nem mesmo as histórias do automóvel, que eventualmente poderiam gerar um texto literário, porém de certo interesse jornalístico aos aficionados por carros antigos, são compartilhadas pelos autores. Ilustrado por duas fotos do VW 1600 do “cidadão-repórter”, o item foi classificado apenas com o critério de Curiosidade, enquanto outros, tidos efetivamente como notícia, normalmente reuniam mais de um critério ao lado daquele. O que nos leva a questionar: pode um material desta natureza ser considerado como jornalismo colaborativo? Mizuta, do VC Repórter, acredita que em alguns casos o relato pessoal pode sim ser valioso para o noticiário:

“Depende do tipo de texto. Artigos ainda não possuem espaço no VC Repórter, mas há a possibilidade de que essa divisão venha a existir. O leitor ainda confunde um texto opinativo com notícia, principalmente em casos políticos. Relatos de uma viagem, por exemplo, são publicados e com grande proveito.”

Ela diz que o leitor “ajuda na composição do noticiário do portal, podendo ser essa colaboração parcial, com apenas uma foto, ou integral, com uma notícia completa”. Assim prega o manual de redação do portal, segundo Mizuta: “Se o leitor achou que o material enviado é uma notícia, é o nosso papel entender o motivo e, de preferência, garantir espaço para aquele conteúdo”. O que, na visão do professor Ronaldo Lemos, doutor em Direito Civil, ativista de Internet e fundador do site colaborativo Overmundo, mostra a diversidade de vozes da rede mundial de computadores:

“Há relatos pessoais, totalmente individualizados, verdadeiros tesmunhos no Overmundo. E há jornalistas mesmo, graduados ou graduandos, que usam o site para fazer jornalismo propriamente dito. O que acho mais interessante é que isso é produto das diferentes motivações que levam as pessoas a participarem do site. Alguns querem dar visibilidade a uma atividade local, outros querem mesmo criar um relato objetivo, outros querem polemizar e assim por diante. No fundo, o resultado é uma combinação muito rica, que mostra que há muitas mídias e muitas mensagens diferentes dentro da Internet.”[6]

Por fim, o levantamento registrou os critérios dramaticidade (44 matérias), conflito (33), notoriedade (18), surpresa (18) e conhecimentos (5). O baixo volume de notícias com este último critério também nos leva a inferir que, diferentemente da experiência do site OhMyNews, há poucos especialistas em suas áreas de atuação que dispõem-se a participar do cenário colaborativo no jornalismo dos grandes portais brasileiros. Ao contrário do que acontece com o OhMyNews, que “encoraja [seus] cidadãos-repórteres a escrever matérias de acordo com seus trabalhos, atitudes, interesses ou áreas de especialização”.[7]

HIPERLOCALISMO

Em paralelo ao grande volume de matérias com o critério da proximidade, foi possível registrar também um grande volume de publicações com tendência ao hiperlocalismo. A maioria das notícias avaliadas (90%) aborda fatos ocorridos no entorno físico dos cidadãos-repórteres. Optamos, portanto, em apresentar e incluir tais resultados em nossos parâmetros de pesquisa.

Para embasar o conceito de hiperlocalismo utilizamos as idéias de Mark Glaser (2007), que descreve o fenômeno nos Estados Unidos:

“Notícias hiperlocais são informações relevantes para pequenas comunidades ou vizinhanças que foram negligenciados pela mídia tradicional. Graças ao baixo custo de ferramentas de publicação e comunicação online, sites independentes de notícias hiperlocais começaram a surgir para servir a estas comunidades, enquanto a mídia tradicional procura iniciativas próprias para cobrir o que têm perdido. Em alguns casos, sites hiperlocais deixam qualquer pessoa enviar matérias, fotos ou vídeos da comunidade, com variados graus de moderação e filtros.”

A definição de Glaser vai ao encontro do conceito de hiperlocalismo de Shaw (2007), para quem esse tipo de iniciativa tem se mostrado uma forma de engajar leitores que têm fugido da mídia tradicional:

“Não há definição oficial, mas geralmente um site de notícias hiperlocais (também conhecidos por microsites) é devotado às histórias e minúcias de uma vizinhança particular, CEP ou grupo de interesses em uma certa área geográfica. Tais sites têm florescido na Internet há algum tempo, inicialmente como startups independentes, criadas e mantidas pela dedicação dos fundadores, que trabalham com orçamento bastante restrito. Outros sites fazem dinheiro (apesar de geralmente não muito) ao oferecerem espaço publicitário barato para negócios locais —o restaurante regional, lavanderias ou lojas de artesanato que geralmente não conseguem pagar anúncios em publicações que abrangem toda a cidade. Alguns sites hiperlocais têm conteúdo produzido ao menos em parte por jornalistas profissionais e pagos. Muitos outros não têm.”

Mizuta, do VC Repórter, acredita que esta é “a origem e o sentido do jornalismo colaborativo”. Segundo ela, o noticiário participativo tende a ser regionalista em uma primeira fase, e o internauta, na grande maioria das vezes, fala sobre o que acontece à sua volta, sobre o que lhe afeta diretamente e o seu entorno:

“Ele pode falar da árvore que caiu na frente da casa dele, do buraco na rua do bairro, do problema de água na cidade. Em raros casos ele vai flagrar um acidente que acontece longe do seu trajeto cotidiano. Em uma segunda instância, que já conseguimos atingir aqui no VC Repórter, ele vai falar sobre um destino turístico que visitou, sobre o anúncio de uma banda, ou a morte de um esportista. Mas tudo ligado ao círculo de interesse dele.”

Interessante notar a tendência hiperlocal do jornalismo colaborativo dos portais para contrastá-la ao comportamento comum da grande mídia brasileira, inclusive na Internet. Como veremos nos desafios e caminhos do cenário brasileiro traçados no capítulo 5, esta tendência vai de encontro à freqüência com que material produzido por agências internacionais de notícias é reproduzida e utilizada no noticiário tradicional, o que acaba por minimizar o contato do brasileiro com sua própria realidade. Tendência que o jornalismo colaborativo poderia reverter nos grandes portais —e que já ensaia fazer, especialmente em casos de grandes tragédias, como descreve Rodrigo Flores, do UOL:

“No mínimo, o conteúdo do público complementa o nosso trabalho. Em alguns casos, ele é o nosso trabalho, é fundamental. Porque às vezes é o único recurso. Um exemplo foi o desabamento da ponte em Agudos (RS). Não temos repórter lá. A única forma de conseguir rapidamente registros do local seria acionar o público. Outro exemplo? São Luiz do Paraitinga. A cidade foi devastada. Fizemos um “antes-e-depois” [álbum com fotos dos locais antes e depois da enchente que ocorreu em 2009], pedimos ajuda aos internautas. As pessoas publicam fotos no UOL Mais, fazemos um filtro do que chega, e as imagens mais legais publicamos no template de notícias, identificadas com uma marca d’água. Muitas vezes a gente mistura conteúdo do público e conteúdo do UOL.” [8]


[1] “Torcida lota estádio de Marília para ver Ronaldo”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1024177-8491,00.html> Acesso em: 10 mar. 2009.

[2] Em entrevista ao autor.

[3] “Cores no céu intrigam moradores de SP e do RS”. Disponível em: <http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI3608952-EI238,00.html>. Acesso em: 10 mar. 2009

[4] “Eu tenho um carro nas cores prata e rosa”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1039574-8491,00.html>. Acesso em: 10 mar. 2009.

[5] “Temos xodó pelo nosso carro Zé do Caixão”. Disponível em: <http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL1031868-8491,00.html>. Acesso em: 10 mar. 2009.

[6] Em entrevista ao autor.

[7] “OhMyNews FAQ: Can I make a press release an article?”. Disponível em: <http://english.ohmynews.com/reporter_room/
qa_board/qaboard_list.asp?div_code=56
>. Acesso em: 12 ago. 2009.

[8] Em entrevista ao autor.

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2 comentários sobre “Hiperlocalismo e critérios de noticiabilidade no jornalismo colaborativo brasileiro

  1. Olá, estou preparando uma monografia sobre jornalismo participativo, mas quero focar em mostrar como é importante ter essa colaboração de leigos, mas como eles não podem substituir um jornalista formado, justamente por que nem sempre têm o feeling do que é notícia ou não. Você tem algo neste blog focado nisso? Recomenda algum material? Grata.

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